Este blog é um espaço de argumentação sobre a fé na vida do cristão.Cada artigo aqui publicado visa fomentar em seus seguidores a discussão sobre temáticas diversas, que envolvem o ambiente religioso católico e sua ação social na realidade; contribuindo para uma práxis cristã concreta no mundo.
O consumismo é o motor da
atividade econômica que permite a manutenção do capital. Porém, para se
consumir é preciso ter recurso material. Sem dinheiro não se consome. O
dinheiro é o instrumento simbólico de valoração dos produtos, do acesso a eles
e da classificação social (sou rico, sou pobre).
Guiado
por esses raciocínios (critérios) econômicos, a sociedade capitalista se mantém
e subsiste, concentrando nas mãos e para o capricho de poucos a riqueza e a
qualidade material de vida, pois as mercadorias vão para aqueles que têm maior
poder aquisitivo e podem pagar, a peso de ouro, tudo que seus sonhos de consumo
desejar...
Enquanto
um cachorrinho de um milionário come e bebe de tudo, o filho de uma mulher nas
áreas mais miseráveis do Continente Africano e do Nordeste brasileiro, vive
morrendo de fome e sede sem o mínimo necessário para viver e desenvolver-se.
Na
lógica dos critérios econômicos, se humaniza o cachorro e se animaliza o ser
humano, tornando-o uma cobaia da mais desumana experiência do laboratório
capitalista: o empobrecimento, a marginalização, a fome, a morte do homem pelo
próprio homem...
Ao
iniciar um novo ano, um novo tempo que se descortina na história da humanidade,
é oportuno fazer tal exame de consciência, ainda mais quando se fala tanto em
desenvolvimento sustentável, se protege tanto a floresta e os rios, os animais
e em contrapartida de descaracteriza o ser humano, esquecido nas favelas das
metrópoles e nos casebres do sertão, dormindo nas palhas de milho ou nas frias
calçadas das avenidas.
A
sustentabilidade também perpassa a esfera da igualdade social no quesito
econômico. As democracias ocidentais carecem dessa visão antropológica. A
ideologia de mercado fere a dignidade humana e aliena, com cifras e vitrines,
os olhos que não são capazes de enxergar a miséria, que acompanha diariamente a
vida oprimida de quem é impedido de viver como gente.
Fica
a pergunta que não quer se calar – Onde está a cidadania? O que é o ser humano?
Um mero ser econômico? E os cristãos, que tanto pregam a partilha e o amor incondicional,
onde estão os que acreditam naquele Jesus de Nazaré que disse: “Estive com
fome, sede, doente, preso, nu, estrangeiro, e vos pedi ajuda”? Cadê a vida em
plenitude que o Evangelho muito exorta e enfatiza? O Ocidente cristão carece de
cristianismo, dado que sua “religiosidade” hodierna é o capitalismo.
O
novo ano só será feliz quando a demagogia for superada e a esperança
concretizada!
A Ética é indispensável para a
existência humana, por que ela é necessária no convívio social, dado que o
homem é um ser de relações. Dentro do âmbito das relações humanas está a
responsabilidade da pessoa por suas ações (atitudes). Ações essas revestidas de
caráter moral e envoltas no conflito de interesses entre o pessoal e o
coletivo.
Se ética significa modo de ser e
moral, costumes, logo a Ética, para a existência humana, possui a função
importante de ser uma valiosa reflexão teórica que analisa os fundamentos e
princípios que regem um determinado sistema moral, contribuindo, portanto, na
consciência ética da humanidade, a fim de motivá-la na construção da realidade,
do caos para a organização, tornando possível a convivência social (integração
social) em meio a uma realidade paradigmática, conflitante.
“O ser humano deve construir ou
conquistar o seu ser. Não nasce, portanto, acabado. O grande desafio da vida
humana é este processo de construção”, no qual a ética encontra-se inserida,
por isso é indispensável à existência humana.
Quais são os eixos éticos?
São cinco os eixos que constituem
a reflexão ética, os quais se interligam, formando assim uma linha de
raciocínio:
1º O agente (sujeito) – Pessoa humana dotada de faculdades naturais
como consciência (razão, racionalidade) e vontade (liberdade, deliberar,
escolher), chama-se isso de subjetividade ética, ou seja, o sujeito moral em
si.
2º Conjunto de valores (conteúdo do ato ético) – Nesse segundo eixo
encontra-se a vida ética, capaz de transformar objetos, lugares, tempos,
pessoas. Vida composta de um conjunto de valores (espaço e tempo no qual o
agente realiza seus atos), pois as ações morais acontecem mediante valores que
são os princípios, meios e fins dela.
3º Relação entre meios e fins – No terceiro eixo está a técnica, as
contradições sociais e as relações que permitem tudo, ou seja, pensamento,
projeção e execução.
4º A situação (contexto) – Nada acontece no ocaso. Portanto, é
necessário analisar o campo ético do contexto onde estão os valores (princípios
e fins), bem como a realidade (tempo, condições) em que autores e atos estão
inseridos éticamente.
5º Universo cultural (histórico-cultural) – No quinto e último eixo
está o campo histórico-cultural onde está enraizada a ética, a sociedade e os
atos, as ações, a intersubjetividade social do sujeito moral e a sua relação
consigo, com o outro e com o universo. Relação que por si é transformadora
daquilo que é histórico; pode-se dizer que é práxis humana.
Porque ser ético?
A Ética, como parte do agir
social e moral do ser humano, é a expressão de sua humanidade, ou seja, de sua
identidade humana. Faz parte do caráter humano a ética, sem ética é impossível
haver civilização, humanidade.
As teorias e métodos científicos
na modernidade e contemporaneidade
Por Marcos Cassiano Dutra
Introdução
Para
se entender o que é a ciência, é necessário entender e pesquisar a história do
pensamento. Por que pensamos? Por que conhecemos? - São as duas indagações pertinentes no
estudo do processo cognoscitivo do pensamento humano em vista ao conhecimento,
em virtude do qual se estrutura a ciência.
O
ser humano é um ser de experiência, as experiências humanas dependem do
conhecimento. Portanto, o que o homem é, em grande medida, é o resultado do que
ele conhece. Nesse sentido, “o conhecimento é a tentativa de se interpretar a
linguagem da realidade, para se chegar a uma verdade.” Importante ter em mente
que o conhecimento é o conjunto das abstrações da realidade e suas relações,
também que para se chegar a uma possível verdade, é essencial haver uma conexão
entre conhecimento, linguagem e realidade.
A
ciência propicia tal conexão ao oferecer teorias e métodos científicos, cada
qual ao seu modo específico e em sua época específica buscou auxiliar o homem em
sua saga natural pelo conhecimento. A Renascença é o período histórico marcante
para o pensamento científico, dado que é a partir dela que se desenvolve a
Revolução científica, tendo como expoente Galileu Galilei, e posterior a ele
outros pensadores e cientistas que oferecem a humanidade reflexões
filosófico-científicas plausíveis e pertinentes.
Galileu Galilei (1564-1642)
“A realidade é um
sistema de causalidades racionais rigorosas que podem e devem ser conhecidas e
transformadas pelo homem”. Com essa premissa, Galileu Galilei retoma a teoria
de Nicolau Copérnico sobre o heliocentrismo. Até então vigorava a tese
científica geocêntrica, é com Galileu e por meio de sua invenção (o telescópio)
que ele se torna o cientista mais famoso da Europa em sua época, fazendo de sua
teoria a base da física moderna, a qual revolucionou o conhecimento sobre a
astronomia e assim inaugurou a revolução científica moderna, dado que as
antigas verdades científicas foram substituídas por verdades novas.
Antes
da chamada Revolução Copernicana ou Revolução Galileana, a lógica formal da
não-contradição (especulação - dedução) era utilizada como instrumental
científico. Galileu introduz uma nova lógica, a lógica do sentido, fundada não
mais na especulação e sim nos paradoxos e no erro como caminhos para se chegar à
verdade. Esse novo método experimental (indutivista) veio a proporcionar a
resolução de problemas centrais da mecânica e da astronomia.
A
teoria científica anterior a Galileu, se embasava na cosmologia aristotélica,
que considerava o cosmo como um movimento organizado e eterno. Se o universo é
perfeito, ele precisa ser necessariamente eterno – pensava Aristóteles. O cosmo
organizado é regido pelo motor imóvel, que vem a ser a terra. Logo, o mundo
tende a ser perfeito por que o cosmo assim o é e o mundo em virtude disso tem
um fim, por que possue uma finalidade: ser o centro do universo. Por isso
geocentrismo, por que o planeta terra, nessa tese, é o centro do universo,
todos os demais sistemas planetários, giram em torno da terra, motor imóvel que
tudo organiza no cosmo em perfeição.
Galilei
é contrário a essa tese e retoma a teoria de Copérnico, dando a ela maior
sustentabilidade científica. Galileu defende que o universo não é perfeito e
que para se compreender o universo é necessário o domínio matemático, pois
segundo ele, Deus usou da matemática para formar o universo. Portanto, a terra
não é o centro do universo e sim o sol. Todos os planetas em torno dele giram.
Francis Bacon (1561-1626)
Outro pensador
moderno de grande importância para a filosofia da ciência é Francis Bacon. Sua
premissa fundamental era: “saber é poder”. Bacon, assim como Galileu é um
indutivista (defende a experiência e não a especulação – dedução). O saber é
poder por que a ciência possui uma utilidade: contribuir para a melhoria das
condições de vida do homem, por isso ela deve ser aplicada para o progresso
humano. Em suma, o conhecimento não tem um valor em si, mas sim pelos
resultados práticos que ele possa gerar.
Crendo
e defendendo a praticidade e a utilidade da ciência, Bacon não propõe uma
teoria e sim um método, o Novo Organum. Esse método tem por finalidade usar da
lógica para apoiar as teorias das descobertas científicas, a fim de aumentar a
capacidade do homem sobre a natureza, isto é, seu domínio. Francis Bacon é indutivista,
pois o método indutivo, para a ciência moderna, é a fonte da verdade.
Seus
passos para o conhecimento são; observação rigorosa, hipótese, validação e
teoria válida. Todavia, é necessário saber que “aquele que começa uma
investigação repleto de certezas, terminará cheio de dúvidas” – Diz Bacon. Por
isso é preciso destruir paulatinamente os ídolos, somente assim a observação
será determinante para o método, por que a indução só é possível se quebrados
os ídolos.
Bacon
divide os ídolos em quatro:
·Ídolo da tribo (fundado na natureza humana)
·Ídolo da caverna (fundado nos homens enquanto
indivíduos)
·Ídolo de foro (fundado na sociedade e nas
palavras impostas)
·Ídolo do teatro (fundado nas filosofias adotadas
como verdade únicas)
A ciência na contemporaneidade
Na
contemporaneidade dois pensadores da filosofia da ciência merecem destaque, são
eles, Karl Popper e Thomas Kuhn. Cada qual, ao seu modo, deu contribuições
elementares ao pensamente científico na atualidade.
Karl Popper (1902-1994)
Foi um filósofo da
ciência austríaco e naturalizado britânico. Estudiosos afirmam ser ele o
pensador mais importante do Século XX por ter tematizado à ciência. Popper não
é indutivista, e sim dedutivista. Sua teoria científica centra-se no quesito de
fazer a distinção entre o que é ou não é a ciência. Para ele o conhecimento
humano consiste em teorias, hipóteses e conjecturas que o homem formula como
produtos de sua atividade intelectual. Nisso se embasa a teoria da demarcação,
obra mais importante de Popper. A demarcação estrutura-se substancialmente nas
possibilidades, ou seja, nas probabilidades de refutação ou falseamento de uma
teoria científica. A medida em que uma verdade cientifica é passível ser
falseada ou corroborada, ela se mostrará realmente verdadeira ou falsa. Karl
Popper relaciona-se muito com o pensamento cartesiano de René Descartes em sua
teoria do conhecimento. Descartes parte da dúvida metódica para se chegar a uma
possível verdade indubitável acerca do conhecimento humano. Popper parte das
possibilidades de falsear uma tese científica para se chegar uma real verdade
dos fatos. Nessa perspectiva sua teoria da demarcação assemelha-se a uma
dialética cartesiano-científica.
Em
suma, a teoria científica de Popper firma-se na construção progressiva de uma
verdade das “coisas”, não propondo caminhos ou métodos que conduzam
invariavelmente a verdade e sim pela especulação o acesso a chance de alguns
enunciados verdadeiros acerca da realidade.
Thomas Kuhn (1922-1996)
Foi um físico e
filósofo da ciência estadunidense. Seu
trabalho embasou-se sobre história da ciência e filosofia da ciência, tornando-se um marco
no estudo do processo que leva ao desenvolvimento científico. Kuhn rejeita o
dedutivismo e o indutivismo. Ele considera a ciência um processo cíclico e não
linear, faz também a divisão de duas fases importantes na ciência: 1) A ciência
natural e 2) A crise.
Trabalha
cientificamente com os paradigmas. Kuhn afirma que a ciência acontece e se
desenvolve a partir dos paradigmas, que para ele tem o sentido de exemplo
(modelo). A teoria científica de Thomas Kuhn, como já foi dito, é cíclica, ou
seja, um processo que não se acaba e sim trabalha com paradigmas, que estão em
constante renovação para garantir uma verdade em seu tempo histórico.
O
processo científico cíclico de Kuhn estrutura-se da seguinte forma:
·Paradigma:
Conjunto de conceitos e teorias vigentes diante de novos conhecimentos.
·Ciência
normal ou nova: Investigação que se baseia em problemas e uma comunidade
científica reconhece, em particular, durante um período.
·Crise ou
anomalia: Fatos que os cientistas não conseguem resolver. Não refutando e
sim colocando em experiência, partindo do paradigma. Ás vezes ignoram o
problema, culpando ou não.
·Revolução:
Abandono de um paradigma adotado por toda a comunidade científica. Mudança de visão
de mundo, mudança de pensamento.
A
teoria científica de Thomas Kuhn assemelha-se a teoria filosófica de Friedrich
Hegel, na qual se organiza o pensamento em tese, antítese e síntese. Kuhn faz
basicamente o mesmo com a ciência ao recorrer a uma dialética
científico-hegeliana, partindo do paradigma, que gera uma nova ciência e dela
faz surgir uma crise, por meio da qual se chega a uma revolução do pensamento e
da visão de mundo.
Conclusão
A
filosofia da ciência não é algo acabado e sim em constante construção, as
teorias e métodos de ontem e hoje, colaboram para com o pensamento científico
atual, dando instrumentais intelectuais e práticos ao ser humano em sua sede
pelo conhecimento.
Entre os anos de 1962 a 1965 acontece o
Concílio Ecumênico Vaticano II, grande evento eclesial da Igreja no Século XX,
o qual comemoramos 50 anos de sua solene abertura. Dezesseis documentos formam
o corpo teórico-doutrinal do Vaticano II, dentre eles um merece especial
destaque, é a Constituição Dogmática Lumen Gentium, que tratou de um dos temas
centrais da reunião conciliar, a Igreja, a eclesiologia, ou seja, o que vem a
ser a Igreja, qual seu papel apostólico, missionário e catequético.
Até então vigorava a tese teológica
da “societas perfecta”, fruto da mentalidade advinda dos concílios de Trento e
Vaticano I, que concebiam a Igreja como uma sociedade perfeita sem ruga, nem
mancha, o reino de Deus institucionalizado que se resumia na hierarquia (papa,
bispos, padres). A eclesiologia de comunhão que o Vaticano II assume e difundi,
rompe com tal premissa da sociedade perfeita ao chamar a Igreja de santa e
pecadora, sempre necessitada e no caminho da conversão. Igreja que não é o
reino, porém está a serviço do reino no mundo e por isso mesmo é sacramento de
salvação aos homens e mulheres na história.
A constituição dogmática conciliar
A Lumen Gentium aponta e recupera o caráter trinitário e comunitário da
Igreja “querida pelo Pai, fundada pelo Filho e santificada no Espírito Santo”.
Uma Igreja que é sacramental e ao mesmo tempo ministerial, uma Igreja que é
hierarquia de dons e carismas e acima de tudo é um mistério sagrado tornado
realidade ao se fazer rebanho do Senhor, povo de Deus, já prefigurado no Antigo
Testamento em Israel e cristificado no Novo Testamento em Jesus, o qual a funda
e firma na rocha da fé de Pedro, escolhido para ser aquele que confirma os
irmãos na fé e os Apóstolos, seus Sagrados Pastores no múnus de reger, ensinar
e santificar a Grei do Senhor em comunhão com o Sumo Pontífice. Igreja que é
uma irmandade de vocacionados que pelo Batismo possuem a mesma dignidade e
cidadania eclesial – são cristãos.
O bondoso Papa João XXIII (que
intuiu e convocou o concílio) assim afirmava – “A Igreja Católica não é um
museu de arqueologia. Ela é como a antiga fonte do vilarejo que dá água ás
gerações, como a deu áquelas do passado”. Essa frase do beatíssimo papa ressoou
de maneira providencial nas discussões que levaram adiante os projetos da Lumen
Gentium; afinal o Vaticano II é profundamente marcado pela personalidade do
Papa João. A pergunta crucial que ajudou a desenvolver a teologia eclesial
desta Constituição Dogmática foi – Igreja, o que dizes de ti mesma?
Sem dúvida, mais que a liturgia, a eclesiologia do Vaticano II, é a
grande responsável pela fisionomia eclesiástica que o providencial concílio
assumiu depois de seu encerramento. O rosto da Igreja transfigurou-se, não a
partir de elementos exteriores como os costumes terrenos e sim a partir da
essência misteriosa e espiritual que envolve a existência da Igreja, que é
Cristo. Em Cristo tudo é novo, e, a Igreja nele é sempre nova e atual, pois o
Evangelho não se altera se pereniza na história como proposta de uma vida e um
mundo diferente em Deus.
Assim é a Igreja, “caminha pelo mundo em perene juventude,
embora antiga desde a época dos Apóstolos” – realça João XXIII em sua primeira Encíclica
“Ad Petri Cathedram”. Assim se concretiza a utopia do “aggiornamento”, da
atualização. Entendendo que a tradição é uma fonte que se renova e o depósito
da fé como um tesouro de vida do qual brota, de maneira sacramental, o sagrado
e não como um baú empoeirado e cheio de quinquilharias, anátemas e excomunhões.
Pensar a Igreja hoje com a Lumen Gentium
Dom Aloísio, Cardeal Lorscheider (In Memorian) conclui dizendo – “O
Vaticano II não veio para definir e condenar, mas para servir e amar”. O
remédio da salvação não é a severidade, e sim a pastoralidade. Vaticano II,
primeiro concílio pastoral da história da Igreja, nos apresenta uma face
belíssima da Igreja de Cristo ao compreender que a catolicidade não é tão
somente cristandade é a comunhão da Igreja consigo mesma e com o mundo, em sua
relação apostólico-social com a família humana universal.
A Igreja renasce com o Concílio
Vaticano II, que propôs um revisitar o núcleo eclesial de onde emana a
tradição, isto é, a transmissão da fé, que são as primeiras comunidades cristãs
na época dos Apóstolos e posteriormente na época da Patrística. Hoje, cinqüenta
anos depois, como redefinir a identidade da Igreja a partir Lumen Gentium? Qual
modelo de Igreja está em vigor? Onde se avançou? Em que se retrocedeu? E qual a
perspectiva eclesial para o futuro? - são essas as cinco perguntas
eclesiológicas pertinentes na celebração do Ano da Fé em ação de graças pelo
Concílio Vaticano II.
No artigo anterior se refletiu acerca do corpo humano
em sua mais excelsa unidade existencial na sexualidade e no sexo. Neste texto
falar-se-á do corpo humano enquanto celibatário, sendo essa uma opção livre e
consciente de exercício da sexualidade dentro do aspecto humano-religioso da
consagração e ordenação sacramental. Celibato é uma palavra de origem latina (Caelibatus) que significa “não casado” -
celibatário é, portanto, aquela pessoa (homem ou mulher) que por convicções
vocacionais abre mão de sua intimidade genital (capacidade procriativa), e opta
pelo celibato como caminho virtuoso de vivência da vocação e exercício integral
de seu existir nas relações humanas que envolvem o caráter sexual da
afetividade, todavia nesse caso a sexualidade é entendida como aptidão de amar
a todos sem distinção ou interesse íntimo, pois o sexo aqui é visto como
oblação (oferta) total de si ao mistério de Deus, presente na vocação e que
completa inteiramente os vocacionados e vocacionadas praticantes desse estilo
específico de castidade.
Apologia
celibatária
Equivoca-se ideologicamente que não têm a devida
sensibilidade intelectual e humana para entender que o celibato não é uma fuga
de si da realidade secular ou uma repressão religiosa da genitalidade. O celibato
é a virtude humana específica daqueles que por amor a Cristo e a Igreja colocam
toda a sua existência (corpo, mente e alma) a serviço do Senhor, que os chama a
um projeto e estado de vida distinta dos padrões usuais, porém especial e
sagrado diante de Deus e dos homens e mulheres de boa vontade.
O celibato torna-se um peso ou fardo na vida dos
vocacionados que ao longo do caminho, por motivos variados e ambientes
diversos, perdem a motivação e espiritualidade necessárias ao bom êxito desse
estado de vida ou por que ao discernirem concluem não serem chamados realmente
a essa vocação específica. O celibato não é um problema, é um desafio de
santidade aos que têm nas mãos o tesouro da vida religiosa e sacerdotal a
cultivar. Problemas de ordem sexual envolvendo celibatários são oriundos de
situações humanas e fatos isolados, cada caso é um caso. A sacralidade do
celibato permanece a mesma, sua eficácia depende do compromisso pessoal de quem
por ela optou livre e consciente. Inúmeros são os exemplos de homens e mulheres
virtuosos que viveram de maneira exemplar o celibato, a vida deles é modelo de
esperança nesse sentido.
Aspectos
humanísticos do celibato
O celibato é também caminho para o autoconhecimento,
sendo assim, o celibato favorece o discernimento vocacional de rapazes e moças
que, ao longo do processo formativo para a consagração e a ordenação já se
inserem nesse estado de vida, buscando amadurecer suas vidas, mentalidade e
afetos por meio da ascese espiritual na mística vocacional celibatária.
Celibato, dentro do Catolicismo, não é imposição! É
uma opção e disciplina eclesiástica para um comportamento humano equilibrado
diante da prática cotidiana da vocação específica à vida religiosa e
sacerdotal.
A genitalidade humana não está esquecida no celibato,
ela está presente! Não de maneira erótica e sim pastoral. A pastoralidade da
vocação é uma expressão da sexualidade dos consagrados (das) e ordenados. O
corpo humano não está sepultado no celibato, ele está presente e atuante, não
na sensualidade estética do conquistar sexual e sim na capacidade de colocar
todo o vigor e as faculdades humanas em vista da vocação. É isso que realiza e
completa existencialmente a vida dos homens e mulheres celibatários em sua
integridade corporal.
Conclusão
São Bernardo de Claraval diz – “Onde o amor emerge,
ele supera todos os outros impulsos e sublima-os em amor”. Assim acontece com a
sexualidade e o sexo dentro do celibato, os quais emergem livre e consciente do
amor intenso pela vocação, de forma que todos os impulsos transcendem a esfera
do erótico e sublimam-se na esfera ascética do sagrado na gratuidade
vocacional.
O corpo sempre foi objeto de grandes especulações filosóficas, biológicas
e teológicas ao longo dos séculos. Hoje a humanidade especula o corpo a partir
da ciência e da tecnologia, dois conhecimentos, um advindo da modernidade e o
outro da contemporaneidade histórica. Falar sobre o corpo é falar sobre o ser
humano. Nem os corpos celestes e o dos animais chamam tanto a atenção
intelectual e estética como a anatomia humana, pois o homem tem em si a
necessidade de querer conhecer-se, e o corpo é esse caminho. Corpo que é
sexuado. Logo, dizer algo sobre a corporeidade é discorrer a respeito da
sexualidade e do sexo.
O corpo e sua profunda interligação com o sexo é não só objeto de estudo
e pesquisa como autoconhecimento. É por meio do exercício sexual (quer seja ele
genital ou afetivo) que o homem descobre o outro lado de sua humanidade – o
desejo e o prazer. Além das qualidades naturais de liberdade e consciência, o
homem é dotado de desejos e prazeres. A busca incansável pela felicidade e a
realização é o efeito temporal da causa abstrata dos desejos e prazeres,
presentes na mente humana.
O desejo e o prazer
Desejar e sentir prazer são, portanto, ações que humanizam, dado que não
é ocaso e nem relativo, está envolto pela moralidade e a ética. Sexo e sexualidade
não são algo paralelo à moral, antes resultados comportamentais dela. Sexo e
sexualidade desmoralizados não produzem a conclusão esperada – o
autoconhecimento e equilíbrio das emoções e paixões. Sem moralidade a
sexualidade se degrada na ideologia do descartável e o sexo se torna produto do
mercado sexual.
É um equívoco afirmar que o prazer se encerra em si mesmo. Isso acontece
devido ao sentimento pocessivo-sexual, que é um fenômeno do emocional humano.
Nem todas as pessoas têm essa característica. O prazer aqui significa ser
presença. A sexualidade torna o homem presença geradora de afetos, de
fraternidades e o sexo presença geradora de unidade íntima e vida. Todas as
demais faculdades humanas se ligam a área da sexualidade, por que as faculdades
humanas são parte daquele cujo corpo é sexuado - o ser humano. Por isso que
consciência e liberdade auxiliam para uma sexualidade saudável, visto que
ajudam o homem a examinar suas ações sexuais antes, durante e depois.
A repressão dos desejos e prazeres não contribui com a humanização,
apenas geram pessoas sexualmente não realizadas. É uma ilusão querer ser gente
sem a sexualização natural de seu eu-humano. Reprimir, assim como a
desmoralização, desumaniza a genitalidade humana. Ser humano é ser corpo sexual. Retirar essa identidade
específica do homem é esvaziá-lo em sua existência daquilo que lhe é especial.
Todas as ações humanas são atitudes sexuais, dado que é por meio da força vital
da sexualidade que se constrói a afetividade, que é a capacidade de amar e ser
amado, bem como do respeito ao outro que também é humanamente sexual. O
moralismo ignora esses aspectos e por isso incrimina a sexualidade e demoniza o
sexo. Moralismo é desequilíbrio psicossexual na mesma intensidade da
desmoralização, e, como todo desequilíbrio, só desfavorece a própria pessoa
humana em seu amadurecimento sexual.
Uma nova perspectiva
Importante saber que a sexualidade não se limita, nem se reduz a relação
sexual genital, essa é uma forma distinta de exercício da sexualidade. A
sociedade é um convívio de sexualidades, é uma relação de corpos que
temporalmente edificam juntos uma história. Logo, a história da humanidade é a
história da sexualidade. Portanto, a harmonia entre humanidade e sexualidade é
a via saudável que contribui naturalmente para inter-relação consigo e com o
próximo.
São oportunas as palavras do pensador cristão Leonardo Boff a esse
respeito – “A sexualidade revela o
relacionamento e a comunhão entre diferentes. Tal unificação é carregada de
sentido, pois a vida se estrutura ao redor da simbiose, de trocas e de comunhão
de sentimentos, de materiais e de energias. Esta realidade espelha de forma
densa o mistério fontal escondido e sempre se revelando e entrando em comunhão
com o diferente” (Livro Cristianismo o mínimo do mínimo, Editora Vozes).
Frente ao erotismo e ao puritanismo (seja ele qual for em suas mais
diferentes manifestações), a busca pela compreensão abrangente e coerente do
sexo e sexualidade se faz oportuna. Uma antropologia sexual é o desafio atual
para aqueles e aquelas que desejam humanizar o caráter sexual do ser humano em
sua comunhão natural consigo e com os demais. Sexualidade que possui três
formas específicas de manifestação - é erótica, filial e ágape. Sexualidade que
é expressão da vida, da natureza, que compõe a existência de um dos seres vivos
chamado de humano.