Este blog é um espaço de argumentação sobre a fé na vida do cristão.Cada artigo aqui publicado visa fomentar em seus seguidores a discussão sobre temáticas diversas, que envolvem o ambiente religioso católico e sua ação social na realidade; contribuindo para uma práxis cristã concreta no mundo.
Em
consonância com a CF 2013, propõe-se aqui discorrer sobre a temática dos
caminhos atuais da juventude no cenário social.
O Caminhar da juventude
Segundo
o pensador cristão J. B. Libanio, SJ – “a medicina, a psicologia e a pedagogia
têm constatado um deslocamento físico, psíquico e espiritual dos jovens”. Esse
é o fenômeno das tendências pessoais ou coletivas no distanciamento do
idealismo para a busca por experiências momentâneas sem compromisso.
Estudiosos da área de psicologia
definem que há na juventude dois tipos de dinamismo que se completam quando
relacionados de maneira sadia.
O
dinamismo projetivo – É aquele que motiva o jovem para o futuro por meio
dos sonhos. No uso criativo da imaginação, ele constrói e almeja projetos de vida,
enxergando o amanhã com esperança, e, encontrando no presente a força
necessária diante dos desafios.
O
dinamismo explorativo – É aquele que foca-se exclusivamente ao presente,
buscando realizá-lo ao máximo, deixando o futuro em segundo plano, pois o que
importa não são os projetos e sim as vontades momentâneas.
A realidade juvenil
Na
juventude contemporânea, influenciada pela mentalidade do consumismo
pós-moderno, predomina o dinamismo explorativo acima do projetivo, anulando
assim o papel dos ideais na vida humana.
O ideal, dentro da esfera da
consciência, proporciona ao ser humano referenciais de vida com perspectivas
quanto ao futuro. Por exemplo, a realização profissional, vocacional, a
constituição de uma família, etc, são ideais nobres de vida projetados pela
consciência, por que neles está embutido o grande anseio natural – a
felicidade.
Quando os ideais são trocados por
outras tendências que não visam à completude existencial do homem, isto é, uma
vida realmente feliz e humanizada, ocorre o desligamento do projetar-se para o
futuro a fim de viver o momento sem perceber, ou seja, tomar conhecimento, das
conseqüências históricas das escolhas e atitudes impensadas. Essa tendência
perpassa o âmbito das relações consigo, com o outro e com o divino,
caracterizando o utilitarismo.
Os efeitos ideológicos
A
autonomia e a independência, desfocadas da maturidade necessária, deturpam o
real significado de ser autônomo e independente, visto que o todo do humano,
quer dizer, aquilo que o homem é (corpo, mente e alma), está focado
exclusivamente no erotismo, o qual distorce o campo da sexualidade, produzindo
jovens com corpos vigorosos e fortes, mas com psiquismo frágil e menos
capacidade de responsabilidade, cujo comportamento é fruto da “tirania do
prazer”, ideologizada e disseminada na atualidade, visando uma cultura na qual
a juventude seja não só uma etapa da vida e sim um período a ser prolongado o
máximo possível.
Conclusão
Vê-se,
portanto, que a mentalidade pós-moderna é a responsável direta pelas
transformações na consciência do jovem no anulamento do dinamismo projetivo
pela supervalorização do exploratismo. Cabe a sociedade, especialmente aos
jovens, protagonistas de seu próprio desenvolvimento, a identificação de
soluções em torno dos rumos da juventude nessa época, encontrando na mesma
pós-modernidade que aliena, o antídoto eficaz contra o exploratismo exacerbado,
em defesa do equilíbrio consciente e construtivo das mentes juvenis.
Com a
definição da data para o início do conclave em 12 de março, que elegerá o
sucessor de Bento XVI (Papa emérito), a Igreja e o mundo aguardam com esperança
e curiosidade o célebre anúncio do "Habemus Papam!" Diante desse
momento-chave na história contemporânea da Igreja, é pertinente recordar o
maior evento eclesial do catolicismo no século passado - O Concílio Ecumênico
Vaticano II, haja vista que a mídia em geral vem utilizando-se desse concílio
de forma a deturpar sua intencionalidade teológico-pastoral para legitimar
especulações falaciosas e demagógicas acerca da Hierarquia Apostólica.
Fala-se tanto
em modernização da Igreja que mais parece um carnaval de opiniões caricaturadas
de "interesse" pela barca de São Pedro, quando não! É mero
oportunismo jornalístico, utilizando-se de certas problemáticas internas da
Igreja para expô-la ao ridículo perante o mundo globalizado.
Todavia os
problemas não são o fim e sim ocasiões da limitação humana necessitada da graça
de Deus e da sabedoria do Espírito Santo para resolvê-los da melhor forma
possível. Por isso a eleição do novo Romano Pontífice é importante e a renúncia
de Bento XVI providencial, ambos sinais de amor pelo Rebanho do Senhor.
Modernizar
deriva de duas palavras latinas: modus/modo e hodierno/hoje, quer dizer, o modo
de hoje, algo que João XXIII exclamava ao dizer: "aggiornare la
chiesa!" - Atualizar a Igreja. E isso, sem sombra de dúvidas, o Vaticano
II conseguiu com seus magníficos 16 documentos conciliares (4 constituições, 9
decretos e 3 declarações), feito que se deve a coragem apostólica do Beato Papa
João e a inteligência equilibrada do Servo de Deus Paulo VI, bem como da
capacidade comunicativa de João Paulo II e da coerência teológica de Ratzinger (Bento
XVI), o qual foi um dos mentores intelectuais desse concílio e levou a cabo tal
aggiornamento, quer como teólogo, como Pontífice em seus quase 8 anos de
papado.
Modernizar a
Igreja não é romper com sua história e tradição, frutos não do esforço humano,
mas da iniciativa sagrada que a quis e erigiu em Jesus Cristo nos
Santos Apóstolos.
Claramente que
50 anos depois da abertura solene do Vaticano II, vivemos uma época de síntese
desse concílio e também de análise para prosseguir sua implementação, pois as
mudanças eclesiais e pastorais que ele intui não acontecem da noite para o dia,
precisam de tempo e de amadurecimento, essa é a missão do próximo Papa: levar
adiante a barca de Cristo confiada a Pedro, dentro das propostas do Vaticano
II.
O Vaticano II
não foi um concílio da ruptura! Quem o pensa dessa forma comete equívocos! O
Vaticano II é o concílio da reforma na continuidade. Essa é a hermenêutica
correta, que já em 1985 o Sínodo dos Bispos em Roma junto ao Papa Wojtyla
concluía.
Enquanto aguardamos
a eleição do novo Pontífice, olhemos com fé para a história desta Igreja que
somos, confiando na esperança pascal de Cristo sempre presente junto a seu povo
e seus sagrados pastores e rezemos para que no voto dos Cardeais o Espírito
Santo escolha aquele que segundo a vontade de Deus é o escolhido para pastorear
seu Rebanho daqui em diante.
Na
Idade Moderna a razão era o fator determinante para se saber quem é o homem.
René Descartes, filósofo francês dessa época dizia: “Cogito ergo sum” – penso,
logo existo. Hoje, no século XXI, inverteram-se tudo, não mais o racionalismo e
sim a aparência é o que define o humano. “Apareço, logo existo”, essa é a
premissa da sociedade das aparências, mergulhada de forma alienante no
consumismo virtual das plataformas de relacionamentos que o advento da internet
proporcionou.
Aparecer é o verbo preferido das
ações do invejoso que deleta (apaga) a todo custo aquele ou aqueles os quais
ousam colocar sua imagem de pop-star em escanteio. A psicologia do holofote abarca não só
o mundo virtual, mas também o real, seja nas revistas, jornais e outros meios
de comunicação social. Além dos já conhecidos plágios, ou seja, a cópia de
teorias ou idéias de algum autor, a competição pelo status que a aparência
proporciona é o motivo crucial na aplicação da inveja entre as pessoas.
Infelizes os invejosos, que excluem
a imagem do próximo por puro egoísmo enrustido nos mais fajutos pretextos
sociais ou até mesmo religiosos, o que em si é lamentável. Esses cultivadores
da inveja ainda não aprenderam que o maior tesouro da vida é o respeito pelos
dons e a criatividade dos irmãos na escola da vida.
Pertinente é o pensamento do saudoso
músico Renato Russo – “As pessoas julgam a aparência, mas se esquecem de que o
mal da sociedade são as pessoas sem caráter”.
Aqui
e acolá se fala sobre cultura e seus diversificados sinônimos, mas o que vem a
ser isso que chamamos de cultura?
Estudiosos
da área de ética consideram a cultura como sendo uma segunda natureza humana (a
primeira é a biológica). A definem como totalidade dos produtos da atividade do
ser humano, por exemplo: linguagem, arte, religião, leis, normas...
Se
a cultura é parte da natureza humana, ela é algo que distingue o homem dos
demais animais. Nesse sentido, a cultura é uma criação social, dado que o ser
humano, mentor cultural, é um ser de relações, isto é, um ser social. Ao fazer-se
criação da vida social, a cultura torna-se um instrumento ideológico de
interiorização de valores para a sociabilidade.
Por isso que para se estudar o
ser humano, um dos caminhos que a antropologia (estudo sobre o homem) utiliza é
a pesquisa científica em torno das mais distintas manifestações culturais da
humanidade. Vê-se, portanto, que a cultura não é mero acidente histórico, e sim
um dado elementar do caráter humano.
O
ser humano é um ser em construção. Não nasce pronto e acabado, nasce
potencialmente capaz de construir o seu ser. Esse é o grande desafio da vida humana
– o processo de edificação da própria existência. A cultura se encaixa nesse
caminho processual como uma das formas construtivas do eu-humano.
“Crer para compreender e
compreender para crer” – Sto. Agostinho
Por Marcos Cassiano Dutra
A Filosofia é
uma ciência humana que germinou na cultura grega antiga nos séculos VI e VII
a.C. e, ao longo do tempo, se difundiu na sociedade européia medieval e
moderna, prosseguindo até os dias de hoje na contemporaneidade. É em si um
saber suja finalidade é o aprimoramento da faculdade natural do homem chamada
reflexão.
Filosofia significa amigo da
sabedoria (Filo-amigo / Sofia - sabedoria). O filósofo é, portanto, aquele que
busca, por meio do raciocínio reflexivo, aproximar-se da amiga indispensável à
vida – a sabedoria.
Interessante que na cultura judaica
sabedoria quer dizer saber saborear a vida. Quem realmente filosofa, além de
relacionar-se com a sabedoria, de certa forma reflexiva, aprende a existir bem,
ou seja, a saborear a vida ampliando o conhecimento.
Os primeiros Padres da Igreja já no
século II, entre eles Santo Agostinho de Hipona, intuíram que o pensar
filosófico seria de grande valia para a fé e a vida cristã. Por isso utilizaram
da Filosofia como instrumental no estudo da Teologia. Posteriormente a essa
época dos Padres da Igreja (a Patrística) deu-se, no início do século IX até o
fim do século XVI, o período histórico da Escolástica, tendo Santo Tomás de
Aquino como seu magno representante, por ter ele utilizado de maneira magistral
o pensamento aristotélico em sua vasta obra teológica. A Filosofia é tão
importante que todo o bom estudante de Teologia deve ter também uma boa base
filosófica.
Mas qual é, em suma, a relação que
se estabelece entre Filosofia e vida cristã? Sem dúvida alguma é a relação
racional para o amadurecimento do intelecto da fé na reflexão acerca da
doutrina e pesquisas em torno de variados assuntos teológicos. Uma fé
consciente resulta numa prática religiosa coerente; nesse sentido se encaixa
perfeitamente a vida cristã e o pensamento filosófico.
Se Filosofia é ser amigo da
sabedoria, e, se sabedoria é saber saborear a vida, logo a vida cristã,
auxiliada pelos conhecimentos filosóficos, é um constante aproximar-se da
Sabedoria Eterna (Deus), para assim saber saborear com dignidade o dom da vida
segundo o Evangelho.
Várias são as definições para a
palavra renovar. O Dicionário da Língua Portuguesa aplica os significados:
tonar novo, dar novo brilho, ou seja, novas forças; modificar, transformar,
recompor, restaurar, rejuvenescer, revigorar-se... Como se pode notar muitos
significados existem para o termo renovar.
Em
seus últimos compromissos públicos como pontífice, após ter anunciado sua
corajosa, humilde e prudente renúncia à Cátedra de São Pedro, quis o Santo
Padre reunir-se tradicionalmente no início da Quaresma com os sacerdotes
católicos residentes em Roma. Nessa particular ocasião, Bento XVI deixou de
lado o formalismo dos discursos escritos ao fazer uma verdadeira aula aberta
sobre a história da Igreja, em especial acerca do cinquentenário Concílio
Ecumênico Vaticano II, dentro da perspectiva teológico-pastoral oriunda deste
evento eclesial importante, e, em consonância com o Ano da Fé em vigor.
Ao
expressar sua análise crítico-teológica acerca da Igreja na atualidade, Bento
XVI foi enfático ao recordar o jubilar concílio, exortando os presbíteros, bem
como todos os fiéis cristãos, a uma urgente e providencial renovação de toda a
Igreja a partir das conclusões do Vaticano II. Mesmo já passados cinquenta anos
de sua solene abertura em 1962, este concílio continua a dizer algo especial à
Igreja, isto é, a ser pertinente, haja vista que ainda há muito por fazer ao
estudar com afinco seus dezesseis documentos (4 constituições, 9 decretos e 3
declarações) tanto em quesito doutrinal como pastoral.
Nesse
eixo teologal de ação eclesial para o futuro, proposto por Bento XVI, se
encaixam de maneira uníssona os significados elencados acima pela gramática da
língua portuguesa aplicados à palavra renovar, verbo interligado com renovação.
Sabe-se que todo o verbo indica uma ação. Eis, portanto, o verbo que Bento XVI
deixa como testamento desses seus 7 anos de pontificado – renovar a Igreja de
Cristo no pentecostes do Vaticano II.
Em
outras palavras, tornar nova, em um mundo secularizado, a mensagem do
Evangelho, dando novo brilho à vida cristã, a fim de que se tenha nova força
profética (testemunhal) frente aos desafios da sociedade atual que carece de um
discurso religioso católico mais eloquente. Modificar e transformar as mentalidades
deturpadoras do relacionamento Igreja/mundo – cristãos e contemporaneidade.
Recompor, restaurar e reformar aquilo que necessita dessas três atitudes
reflexivas nas áreas que carecem desta sábia intervenção, dado que somente
assim será possível rejuvenescer e revigorar o rosto salvador e redentor de
Jesus Cristo, que se estampa e se transfigura na fisionomia de sua Igreja Una,
Santa, Católica e Apostólica.
Fortes
são as palavras do Beato Papa João XXIII – “A Igreja, embora antiga desde a
época dos Apóstolos, caminha no mundo em perene juventude” (Encíclica Ad Petri
Cathedram). Quando convocado o Concílio Vaticano II esse Papa repetia como uma
ladainha do Espírito Santo a palavra-chave desse concílio: aggiornamento
(atualização). Hoje, passados cinquenta anos, outro pontífice, de um
pontificado de transição assim como o “Papa bom”, vem nos dizer: renovai a
Igreja. Certamente Entre João XXIII e Bento XVI está algo maior chamado Divina
Providência, cabe a nós agora a tarefa de tramitar na Igreja e no mundo a
riqueza incalculável desses dois apelos papais dentro de três realidades que
somos enquanto Corpo Místico de Cristo: hierarquia de dons e carismas, comunhão
e missão.
Em se tratando de espiritualidade e
psicologia, um pensador pertinente a esse respeito é Carl Gustav Jung
(1875-1961). Dos pensadores modernos ele é o que mais se interessou pela
espiritualidade em seus estudos psicológicos. Sua obra intelectual, embora seja
psicológica e por isso científica, não foi insensível a busca da
espiritualidade. Jung considerava que o mundo precisa buscar novamente sua
espiritualidade, pois ela é essencial a humanidade.
Jung descobriu em suas pesquisas que
a espiritualidade não é monopólio das religiões e dos caminhos espirituais. A
espiritualidade é uma dimensão do humano, que transparece na religiosidade.
Para ele, o ser humano possui 3 dimensões:
Dimensão
corporal: onde está presente a relação humana consigo, com os outros e
com o universo.
Dimensão
mental: onde estão presentes os desejos, os arquétipos (modelos) e os
sonhos.
Dimensão
espiritual: onde se encontram as questões últimas da existência: Quem
sou? De onde vim? Para onde vou?
Na
dimensão espiritual estão os valores não-materiais de pertença a algo maior, ou
seja, a metafísica do ser humano, isto é, sua capacidade de transcendência.
Centralizada no solo interior do homem (de sua existência), está a “imago Dei”
(a imagem de Deus) – arquétipo mais íntimo que satisfaz todas as energias
(forças) do humano e o eleva para acima de seu próprio universo concreto, quer
dizer, o transcende.
Para Jung a espiritualidade faz o
homem perceber que o universo não existe por acaso, mas que tudo quanto existe
está interligado pelo fio condutor que une esse tudo, construindo essa
realidade como cosmo, ordem, organização de espaço e tempo. Esse fio condutor é
chamado de Deus pelas religiões, o qual não está fora ou distante, e sim dentro
do próprio humano na dimensão espiritual. Portanto, a espiritualidade é o
dialogo com esse mistério interior. Essa vem a ser, segundo Jung, a tarefa da
espiritualidade.
A figura de Deus
Jung
conclui que Deus é o objeto de uma experiência, essa experiência se chama fé. É
pela fé que se tem a crença, ou seja, a certeza de algo transcendente no além
do espaço e tempo. Mas essa experiência não é um mero acreditar. Jung afirma
que para saber que há Deus não é necessário acreditar, mas sentir. Ele se
embasa no filósofo Blaise Pascal (1623-1662) – “Crer não é pensar Deus, crer é
sentir Deus”.
Sentir Deus é, em Jung, uma
experiência globalizante e profunda ao ser humano. Negar essa experiência é
negar-se a si mesmo, dado que Deus está no espiritual, e a espiritualidade é
uma parte do todo da existência humana. Logo, o homem não precisa crer em Deus,
por que naturalmente ele sabe que Deus pertence ao seu universo. A profissão de
fé de Tomé diante do Cristo Ressuscitado também faz eco ao pensamento da
psicologia junguiana. Diz o discípulo: “Eu creio (acolho esta realidade), mas
aumenta a minha fé (me abra mais espaço e seja mais presença dentro de mim)”.
Professam essa certeza interior os
que se deixam mergulhar no mistério da espiritualidade, esses se chamam
místicos. Místico ou mística é todo aquele que tem haver com o mistério. É
alguém que se transforma num ser cósmico e alarga sua consciência, isto é, uma
pessoa sensível aos dados do mistério.
Jung e Freud
Jung
e Freud foram mútuos colaboradores intelectuais na área da psicologia. Porém entre
ambos há especificidades de pensamento em torno de diversas temáticas humanas,
como por exemplo a religião.
Sigmund Freud (1856-1939), um dos
célebres clássicos da psicologia ocidental, foi um grande observador da
cultura. Foi extremamente exato, objetivo em suas observações psicológicas,
todavia não se deu conta de que ele observou uma cultura patológica (cultura
doente). E isso foi decisivo para sua teoria do falocentrismo, que é a
centralidade na sexualidade, visto que a cultura humana atual coloca o sexo
como o centro da sociedade. Freud criou então uma teoria para se entender essa
problemática. Jung teve a importante tarefa de analisar a teoria do
falocentrismo freudiano e concluir que ela é uma visão reducionista e
patológica, por que toma a manifestação fenomenológica da sexualidade
(falocentrismo) como uma normalidade humana.
Isso influenciou a opinião
intelectual de Freud acerca da religião. Em Freud a religião é um processo
patológico do ser humano, classificada como neurose coletiva, pois está fundada
na dependência que o homem tem para com as figuras materna e paterna,
projetando elas para o grande pai e mãe que no caso vem a ser Deus.
Freud percebeu que a religião é uma
neurose permanente do ser humano. Embora o homem precise de autonomia (ser pai
e mãe de si), ele ao mesmo tempo necessita de algo que o ajude, pois o humano é
continuamente um ser em decadência, possue limitações próprias e não consegue
se refazer sozinho. Nesse sentido a religião tem uma função terapêutica
(neurose) que evita a psicose, quer dizer a destruição do sentido de vida.
Há na religião um paradoxo: enquanto
ela ilude o ser humano (projeção das figuras paternas), mas, por outro lado,
permite que ele viva, dando sentido ao triunfo de vida acima do triunfo de
morte, ambos presentes na psique humana.
Jung e a religião
Jung
amplia essa visão freudiana sobre a religião ao apresentá-la como possibilidade
de um processo criativo saudável e necessário para o ser humano. No processo
criativo-religioso está a felicidade, que não é dada nem na genética, muito
menos na vida social. O homem, com seu conjunto de fatores, desafios e
respostas, é que pode dar um sentido a essa busca pela felicidade, ou seja, sua
tarefa é construir a felicidade, por que ela é o resultado de um longo processo
de auto-realização, de auto-construção humana, pessoal e também coletiva.
Encontrando na religião uma aliada nesse caminho existencial e psicológico por
meio da espiritualidade.
A espiritualidade está ligada ao
caráter do sensível, da percepção da totalidade, por isso ela contribui para a
construção existencial do homem. O lucro da indústria de tranqüilizantes é o
reflexo da angústia humana na contemporaneidade. Se por um lado o homem se
desenvolve com super tecnologias, processando o avanço humano em fração de
segundos, a existencialidade (a espiritualidade) desse mesmo ser humano
encontra-se em ruínas.
A obra de Jung aparece como uma luz
no fim do túnel, por que ele redireciona o ser humano na direção, na meta, na
fonte original que é a sua interioridade, onde o homem pode encontrar sua
verdadeira felicidade e seu bem-estar no mundo, dado que na interioridade, está
a espiritualidade, e na espiritualidade Deus e em Deus a alma humana que, no
mistério do sagrado, encontra seu sentido de vida.
Jung e a realidade
Jung
considera que a realidade é contraditória, por que possue duas dimensões:
A Dimensão
do caos: onde há sombras, violência, desestruturação.
A Dimensão
de ordem: onde há beleza, graciosidade, amorosidade e cuidado.
Essas duas dimensões formam a
realidade, na qual o homem está inserido, pois ela é parte do ser humano, que
por índole é um ser real, isto é, um ser histórico. Todavia entre caos e ordem
há também uma relação de união entre os opostos, pois a humanidade é ao mesmo
tempo um drama pessoal e um horizonte teórico. Quando o ser humano, aberto para
sua interioridade, assume essa realidade com honradez, ele não teme as sombras
e abraça com alegria a luz para assim fazer o assertivo equilíbrio, que o faz navegar
nas águas do mar da vida com soberania.
É dele a célebre citação – “Sou eu
próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta, caso
contrário estou reduzido à resposta que o mundo me der, por que só aquilo que
somos tem o poder de curar-nos. O que não enfrentamos em nós mesmos,
encontraremos como destino; não podemos mudar nada sem que primeiro aceitemos. Certamente
essas palavras de Jung fazem eco nas palavras do sábio Mahatma Gandhi: “Nós
devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”. Esse é o princípio da
realidade junguiana, que na interioridade encontra o caminho coerente para sua
estruturação psicológica no eu - humano.
Jung sempre admirou o Cristianismo.
Para ele o mistério pascal é o exemplo mais forte e eloquente dessa relação
entre opostos e do seu equilíbrio espiritual. A Paixão, Morte e Ressurreição de
Jesus Cristo, para o pensador, é a manifestação do caos da angústia e da
solidão humana (Paixão e Morte) e do resgate da vida e da transfiguração do ser
humano (Ressurreição). Na Ressurreição de Jesus de Nazaré está o caminho da
realização de todas as potencialidades humanas, do homem utópico, do projeto
infinito que se torna palpável, que ganha corpo.
Conclusão
Em suma, a humanidade vive nessa
travessia contínua entre a Sexta-feira Santa e o Domingo da Ressurreição. É
essa a realidade humana, a realidade do encontro entre duas personalidades
(caos e ordem), tal qual o encontro entre duas substâncias químicas – Se há
alguma reação, as duas são transformadas. Somente quando assumida com seriedade
e serenidade essa realidade, o seu resultado é a liberdade interior de ser mais
forte que tais contradições. A liberdade interior não tem preço, por que ela
nada mais é que a felicidade, sinônimo de espiritualidade.