quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Creio na Igreja Católica, creio com esperança!


Ano da Fé
Vaticano II – Um desafio de esperança cristã
Por Marcos Cassiano Dutra



Como celebrar o Ano da Fé numa época em que a religião é algo socialmente relativo? Como resgatar as palavras-chaves essenciais e fundamentais do Vaticano II, 50 anos depois? Essas duas indagações são pertinentes no contexto celebrativo atual.
           
Há cinqüenta anos atrás a Igreja realizava esperançosa o Concílio Ecumênico Vaticano II em meio a desafios eclesiásticos internos por parte da cúria romana, que tentou prejudicar os trabalhos conciliares apostando na influência hierárquica vaticana, pois o medo era o "aggiornamento" (atualização) eclesial no diálogo com o mundo.
            
O Vaticano II, assim afirmam os estudiosos, foi uma tentativa de renovação pastoral da Igreja, acolhida e entendida por alguns e criticada por outros. As décadas de 1960 e 1970 deram impulso profético aos elementos fundantes dos dezesseis documentos do concílio, porém a década de 1980, já no pontificado de João Paulo II, paulatinamente foi anulando e mesmo ignorando a importância teológico-pastoral do Vaticano II. Os conservadores da cúria romana intervirão e com o aval papal aplicaram suas afirmações de advertência aos bispos, sacerdotes e teólogos que se empenhavam na consolidação das conclusões conciliares. Uma verdadeira perseguição institucional e policiamento ideológico.
            
O Sínodo extraordinário de 1985, por ocasião dos 20 anos de conclusão do concílio, se propôs a dar uma “interpretação correta” do Vaticano II em resposta as ditas “falsas interpretações”. Nessa nova interpretação sinodal, que se tornaria oficial, condenou-se a expressão “povo de Deus” (presente na Lumen Gentium) como definição eclesiológica, considerando tão somente o caráter mistagógico da Igreja de Cristo, Una, Santa, Católica e Apostólica.  
            
As janelas e portas abertas por João XXIII, e mantidas por Paulo VI, foram praticamente fechadas e, arrisco dizer, trancadas a sete chaves, retornando assim à antiga disciplina, feito disso é o atual Código de Direito Canônico, o qual mesmo com uma linguagem nova, mantém toda a estrutura eclesiástica do código de 1917. Certamente esse é o cadeado que atualmente lacra as portas e janelas da Igreja para todas as mudanças que se poderiam inspirar a partir do Vaticano II, tornando esse concílio inoperante na história, por que na prática hodierna somente se cita o Vaticano II na fala oficial e institucional, mas não o pratica-se.  
            
Hierarcalismo e clericalismo, duas realidade presentes que são fruto das reações contrárias ao Vaticano II por parte dos que acusam o cinqüentenário concílio de colaborar diretamente na revolução cultural do Ocidente a partir de 1968, como se o concílio fosse o responsável por todas as problemáticas ideológicas da humanidade; o que é um equívoco tendencioso e sensacionalista dos que assim querem legitimar uma Igreja aristocrática e a-histórica, quando o Vaticano II vem nos exortar a uma Igreja que é hierarquia de comunhão e agir missionário no mundo, solidarizando-se dialeticamente com a família humana universal e não a demonizando.
            
Fica o questionamento que não deve se calar – Ano da Fé porque e para quê? Simplesmente para redecorar o Símbolo Apostólico e recordar o jubilar concílio como um mero fato passado que marcou a Igreja do Século XX? Ano da Fé sim! Ano Santo como tempo favorável ao exame de consciência de todos os cristãos, especialmente dos membros da hierarquia. Tempo de conversão para uma mudança de mentalidade pré-concebida em face das propostas conciliares. Reler e rezar o Símbolo Apostólico, não como mera repetição ritualista e sim como convicção fideística introdutória no estudo dos documentos do Vaticano II, uma orante iniciativa de resgatar a mesma motivação que o tornou grande pela sua abrangência, consistência, pertinência (providência) e coerência. 
            
Ano da Fé para não perder a fé de que ainda é possível concretizar as utopias do Vaticano II, mesmo que a passos lentos e enfrentando os preconceitos eclesiásticos de quem por hora não vê a Igreja com olhar de Jesus Cristo, o Bom Pastor.
            
Bento XVI é sábio ao proclamar o Ano da Fé, deve o ser também ao propor aos fiéis cristãos um revisitar o concílio, a fim de fortalecer a vivência pastoral cristã e fomentar o ecumenismo e diálogo inter-religioso em uma época que anseia por respostas religiosas capazes de ajudar a humanidade. O Vaticano II vem a ser um dessas respostas, ao apontar caminhos assertivos para cristãos e não cristãos. Lamentável quem ainda não compreendeu o seu apelo profético, mesmo já passados 50 anos de sua abertura solene.

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