Ano da Fé
Vaticano II – Um desafio de esperança cristã
Por Marcos Cassiano Dutra
Como celebrar o
Ano da Fé numa época em que a religião é algo socialmente relativo? Como
resgatar as palavras-chaves essenciais e fundamentais do Vaticano II, 50 anos
depois? Essas duas indagações são pertinentes no contexto celebrativo atual.
Há cinqüenta anos atrás a Igreja
realizava esperançosa o Concílio Ecumênico Vaticano II em meio a desafios
eclesiásticos internos por parte da cúria romana, que tentou prejudicar os
trabalhos conciliares apostando na influência hierárquica vaticana, pois o medo
era o "aggiornamento" (atualização) eclesial no diálogo com o mundo.
O Vaticano II, assim afirmam os
estudiosos, foi uma tentativa de renovação pastoral da Igreja, acolhida e
entendida por alguns e criticada por outros. As décadas de 1960 e 1970 deram
impulso profético aos elementos fundantes dos dezesseis documentos do concílio,
porém a década de 1980, já no pontificado de João Paulo II, paulatinamente foi
anulando e mesmo ignorando a importância teológico-pastoral do Vaticano II. Os
conservadores da cúria romana intervirão e com o aval papal aplicaram suas
afirmações de advertência aos bispos, sacerdotes e teólogos que se empenhavam
na consolidação das conclusões conciliares. Uma verdadeira perseguição
institucional e policiamento ideológico.
O Sínodo extraordinário de 1985, por
ocasião dos 20 anos de conclusão do concílio, se propôs a dar uma
“interpretação correta” do Vaticano II em resposta as ditas “falsas
interpretações”. Nessa nova interpretação sinodal, que se tornaria oficial,
condenou-se a expressão “povo de Deus” (presente na Lumen Gentium) como
definição eclesiológica, considerando tão somente o caráter mistagógico da
Igreja de Cristo, Una, Santa, Católica e Apostólica.
As janelas e portas abertas por João
XXIII, e mantidas por Paulo VI, foram praticamente fechadas e, arrisco dizer,
trancadas a sete chaves, retornando assim à antiga disciplina, feito disso é o
atual Código de Direito Canônico, o qual mesmo com uma linguagem nova, mantém
toda a estrutura eclesiástica do código de 1917. Certamente esse é o cadeado
que atualmente lacra as portas e janelas da Igreja para todas as mudanças que
se poderiam inspirar a partir do Vaticano II, tornando esse concílio inoperante
na história, por que na prática hodierna somente se cita o Vaticano II na fala
oficial e institucional, mas não o pratica-se.
Hierarcalismo e clericalismo, duas
realidade presentes que são fruto das reações contrárias ao Vaticano II por
parte dos que acusam o cinqüentenário concílio de colaborar diretamente na
revolução cultural do Ocidente a partir de 1968, como se o concílio fosse o
responsável por todas as problemáticas ideológicas da humanidade; o que é um
equívoco tendencioso e sensacionalista dos que assim querem legitimar uma
Igreja aristocrática e a-histórica, quando o Vaticano II vem nos exortar a uma
Igreja que é hierarquia de comunhão e agir missionário no mundo,
solidarizando-se dialeticamente com a família humana universal e não a demonizando.
Fica o questionamento que não deve
se calar – Ano da Fé porque e para quê? Simplesmente para redecorar o Símbolo
Apostólico e recordar o jubilar concílio como um mero fato passado que marcou a
Igreja do Século XX? Ano da Fé sim! Ano Santo como tempo favorável ao exame de consciência
de todos os cristãos, especialmente dos membros da hierarquia. Tempo de
conversão para uma mudança de mentalidade pré-concebida em face das propostas
conciliares. Reler e rezar o Símbolo Apostólico, não como mera repetição
ritualista e sim como convicção fideística introdutória no estudo dos
documentos do Vaticano II, uma orante iniciativa de resgatar a mesma motivação
que o tornou grande pela sua abrangência, consistência, pertinência
(providência) e coerência.
Ano da Fé para não perder a fé de
que ainda é possível concretizar as utopias do Vaticano II, mesmo que a passos
lentos e enfrentando os preconceitos eclesiásticos de quem por hora não vê a
Igreja com olhar de Jesus Cristo, o Bom Pastor.
Bento XVI é sábio ao proclamar o Ano
da Fé, deve o ser também ao propor aos fiéis cristãos um revisitar o concílio,
a fim de fortalecer a vivência pastoral cristã e fomentar o ecumenismo e
diálogo inter-religioso em uma época que anseia por respostas religiosas capazes
de ajudar a humanidade. O Vaticano II vem a ser um dessas respostas, ao apontar
caminhos assertivos para cristãos e não cristãos. Lamentável quem ainda não
compreendeu o seu apelo profético, mesmo já passados 50 anos de sua abertura
solene.
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