segunda-feira, 15 de julho de 2013

A Jornada Mundial da Juventude com o Papa


A IGREJA E A JUVENTUDE

Desafios, conquistas e exortações

Por Marcos Cassiano Dutra


O clima da alegre expectativa pelo encontro internacional da juventude católica com o Papa Francisco no Rio de Janeiro já toma conta do coração de nossas comunidades paroquiais e dioceses. A JMJ, além de ser um evento religioso, é também um evento de cunho social e político, visto que a fé cristã do jovem não é somente um elemento a ser exercitado no interior de uma paróquia, mas no todo que envolve o mundo, no qual a Igreja está inserida como fermento na massa e sacramento de salvação. Por isso, participar e celebrar a juventude junto à Igreja, na pessoa do Sucessor de Pedro, é escutar com atenção os sinais dos tempos e colocar-se a serviço do Reino de Deus como discípulos e missionários de Jesus Cristo, modelo de vida e virtudes para todo o jovem.
O Documento de Puebla assinala que, “a juventude não é apenas um grupo de idade cronológica. É uma atitude diante da vida, não uma etapa definitiva, mas transitória”. A etapa da juventude, se vivida com compromisso e sabedoria, tem a chance de transformar a sociedade e a história, porém é necessário manter a atenção juvenil á aquilo que é importante para o bom desenvolvimento da jovialidade: a maturidade humana e cristã. Jovens imaturos passam pelo tempo e perdem a oportunidade de contribuir com um mundo melhor, passam pela religião e perdem a oportunidade crescerem no conhecimento da fé, da Igreja e do encontro pessoal com Jesus na comunidade de fé.
O saudoso Papa Paulo VI, na Exortação Apostólica “Evangelii Nuntiandi” assinala que, “as circunstâncias do momento convidam-nos a prestar uma atenção muito especial aos jovens. O seu aumento numérico e a sua crescente presença na sociedade e os problemas que os assediam devem despertar em todos o cuidado de lhes apresentar, com zelo e inteligência, o ideal evangélico, a fim de eles o conhecerem e viverem”. Se o exemplo, isto é, o testemunho de vida de bons cristãos na família, na comunidade e na sociedade é de grande relevância. Sem esse testemunho, fica prejudicada a transmissão dos valores evangélicos à juventude, pois o jovem necessita sempre de referenciais verdadeiros para viver com dignidade sua vocação á vida e a fé cristã no percurso humano do amadurecimento para a vida adulta.
Portanto, cabe aos adultos cristãos a nobre tarefa de transmitir com vivacidade e verdade, o tesouro da fé aos jovens, especialmente os pais, educadores do lar. Vê-se, então, que a jornada da juventude é não só uma missão do Papa com os jovens, mas de toda a Igreja, de todos os cristãos. Jornada que não se reduz a alguns dias de solenes celebrações, mas prolonga-se depois desses dias celebrativos para o cotidiano.
Que a JMJ não termine com a missa de encerramento, não se reduza ao entusiasmo momentâneo, não se restrinja a um evento, e sim continue sempre mais nas atitudes de todos nós, jovens e adultos, cristãos e cristãs, gente de fé, povo de Deus que caminha nos passos do Mestre de Nazaré.  
Boa celebração da Jornada da Juventude a todos!

terça-feira, 4 de junho de 2013

Falando sobre ética


A Ética e os filósofos
Uma análise de Kant, Nietzsche e Levinas
Por Marcos Cassiano Dutra

A ética é uma disciplina filosófica e um assunto que permeia o pensamento de diversos filósofos, dentre eles três merecem destaque: Immanuel Kant, Friedrich Nietzsche e Emmanuel Levinas.

Emmanuel Kant (1724-1804)         
            Kant baseia, ou melhor, fundamenta sua teoria moral no dever. Nesse sentido, a base da ação moral é o dever moral, no qual se encontra o imperativo categórico: "Aja somente segundo uma regra que você possa querer ao mesmo tempo em que se transforme em lei universal".  

            A ética kantiana coincide com a época do surgimento e a ascensão da sociedade industrial e capitalista, por isso essa ética de Kant é a ética do homem empreendedor, que se fundamenta na autonomia racional, pois para o filósofo, o ser moral é o mesmo que o ser racional, visto que, da mesma forma que ninguém nos pode obrigar a ser racional, ninguém nos pode obrigar a ser racional.

            A ética do dever moral é importante por que o homem contém em si imperfeições no caráter, por isso necessita de algo para que se torne um ser moral. Portanto, o dever deve ser o centro da ação moral, pois a liberdade humana consiste em fazer o que o homem enxerga que é melhor, sendo o mais racional possível a partir do dever que a razão lhe formula.

            Ação e intenção são outros dois pontos importantes na ética kantiana. Para determinar o valor moral de um ato, é necessário saber a intenção com que foi praticado, dado que um ato moralmente bom e correto é aquele que obedece não aos interesses, mas a lei moral que sustenta o dever.

Friedrich Nietzsche (1844-1900)    
            Friedrich Nietzsche vai por um caminho oposto ao de Kant. Nietzsche preocupa-se com a afirmação da vida e propõe o rompimento com aquilo que para ele é a negação dela e o seu condicionamento. Nessa perspectiva nietzschiana, os antigos valores da sociedade antiga e da própria religião cristã não favorecem a vida, mas a desfiguram e matam. Ele chama de valorização negativa da vida esse fenômeno ético-moral que influenciou o Ocidente, caracterizando-o como uma doença a ser curada pela transvalorização dos valores.

            Em seu diagnóstico acerca da cultura ocidental, Nietzsche aponta duas mentalidades que colaboraram para a decadência da vida: o platonismo e o cristianismo.

            O platonismo, ao instaurar o mundo das ideias no qual tudo é perfeito, e o desprezo ao mundo sensível (o nosso mundo), incorreu num grande erro, pois a realidade  não é algo dicotômico entre o transcendental ordenado e perfeito e o sensível imperfeito e caótico, mas o constante devir, a mudança, a contradição.

            O cristianismo, por outro lado, ao fundamentar-se no platonismo, criou uma concepção de mundo e de Deus a partir da diferença entre criador (ser perfeito) e criatura (ser imperfeito), de modo que a criatura imperfeita e limitada, tende a desprezar sua própria vida e apenas olhar para a suposta "perfeição" do divino.

            A tudo isso ele chamou de niilismo, ou seja, o movimento histórico da cultura ocidental que fez produzir o que nela existe de mais latente: a negação da vida, sendo o platonismo e o cristianismo seus dois momentos mais marcantes e importantes, pois influenciaram todo um desdobramento épocal.   

            A cura para essa enfermidade da humanidade ocidental, como já foi dito, é a transvalorização dos valores, que vem a ser a mudança de mentalidade, a adoção de novos valores que não mais condicionem a vida ou reduzam a moral entre aquilo que é bom e aquilo que é mal. É preciso ir além do bem e do mal, isto é, criar novos valores onde a vida seja vivida de maneira plena e incondicional. Por isso o ponto de vista deve ser transformado a partir da ruptura com o ponto de vista que deu origem aos valores da moral ocidental.

            A transvalorização dos valores, em suma, tem por finalidade a afirmação da vida sem imposições (juízos de valor) e condicionamentos. A vida, para Nietzsche, não é somente a consciência da existência, e sim a vontade de poder, de querer e de aceitar, sem medo, o constante devir (mudanças) que ela proporciona. Para explicar isso ele recorre a tragédia grega antiga, na qual a vida era vivida de maneira indissolúvel em seus momentos éticos e antiéticos, entre o ser e o nada, entre o prazer e a dor, entre a maravilha e o espanto.

            Nietzsche recorre à mitologia grega para afirmar sua tese da afirmação da vida como contraposição à negação dela. As figuras de Apolo (deus da individualização e do equilíbrio) e Dionísio (deus da desmedida, da embriaguez mística e do aniquilamento da consciência pessoal) formam a existência humana, formam o apolíneo humano, ou seja, a constante relação entre um e outro, entre os opostos que se atraem e fazem surgir a afirmação da vida em sua essência, de modo que o apolíneo nada poderia fazer sem o encanto do dionisíaco.       

Emmanuel Levinas (1906-1995)    
            Emmanuel Levinas aponta para outra via ética: a da responsabilidade pelo outro. A ética de Levinas não é um princípio individualista (subjetivista) como em Kant, nem uma dimensão de caráter racional como em Aristóteles, muito menos uma revolução de valores como em Nietzsche. A ética de Levinas é a dimensão do reconhecimento de si no outro, pois "o rosto do outro é o meu próprio reconhecimento".

            Nesse sentido, o caráter de uma pessoa se encontra na coletividade, na qual está o seu reconhecimento a partir do outro. Levinas chama isso de reconhecimento da humanidade que há em si e nos demais. Isso configura o conceito de alteridade e subjetividade levinasianos, pois a responsabilidade pelo outro é o que faz a pessoa transcender a si mesma no rosto desse outro, muitas vezes desconhecido.    

            Portanto, a ética de Levinas é a ética do cuidado, a moral do respeito pela humanidade do outro, que é a minha própria humanidade a ser conhecida no desconhecido,  por meio  da co-responsabilidade de ambos.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Cremos na Santíssima Trindade!


Catequese sobre a Santíssima Trindade
Por Marcos Cassiano Dutra

A Solenidade da Santíssima Trindade é uma das festas importantes dentro do calendário litúrgico da Igreja (o Ano Litúrgico), marcando o início do segundo ciclo do Tempo Comum. Essa festa solene do Cristianismo exalta uma de seus dogmas, ou seja, verdades de fé, mais importantes: a crença em Deus Trindade de Pessoas Divinas. Tal devoção à Trindade já estava presente na comunidade de fé cristã desde a época do papado de Inocêncio XII, todavia este papa prudentemente preferiu esperar e aprimorar mais a teologia da trindade para que se fosse proclamado esse dogma. Posteriormente, séculos depois, o Papa João XXII, vendo que a teologia da trindade já estava bem elaborada, e que havia chegado o momento de proclamar esta verdade de fé, cuja origem é a revelação de Deus e não da vontade humana, proclamou esse dogma e estipulou sua celebração no culto divino da Igreja.    
             
Santíssima Trindade, esse é o mistério de Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo. Solenidade importante que se celebra na liturgia dominical depois de Pentecostes. O Pai, a ideia principal que plasmou criativamente céus e terra e a humanidade no mistério da criação e da vida. O Filho, o Verbo, a ação messiânica, salvadora e redentora de Deus junto de seu povo eleito. O Espírito Santo, o Paráclito, a força misteriosa e sagrada que motiva e guia a Igreja, a sabedoria que ilumina a interpretação da Sagrada Escritura e o dom celestial a soprar carismas no meio da comunidade de fé.
            
Diz o grande Santo Agostinho de Hipona: "O mistério da Santíssima Trindade cristã é o mistério do amor Divino. Você vê a Santíssima Trindade, se você vê o amor". Sim, Deus é amor! Quão nobre definição da Trindade indivisa, quão nobre sentimento que invade a alma cristã e a vida humana, quão elementar virtude presente no coração dos que olham o mundo com os olhos, de Deus, os olhos da misericórdia! Se há algo presente na vida humana é o elemento amor. O amor é o sinal visível do invisível que é a Trindade. Amor presente nos gestos, palavras e ações de cada pessoa humana, de modo que quanto mais os homens e mulheres de boa vontade se amam, mais estão unidos ao mistério da Santíssima Trindade.  
            
Assim escreve Santo Anselmo de Cantuária: “Não tento, Senhor, penetrar a vossa profundidade, porque não posso sequer de longe comparar com ela o meu intelecto; mas desejo entender, pelo menos até certo ponto, a vossa verdade, em que o meu coração crê e ama. Com efeito, não procuro compreender para crer, mas creio para compreender”. Sim, o mistério de Deus é infinito e vai muito além de nossa capacidade intelectual, contudo, a razão humana, auxiliada pela graça de Deus, é capaz de crer e compreender, compreender e crer nas verdades de fé que sustentam a vida e o universo, visto que as coisas mais profundas que dão sentido à nossa vida nós não a vemos, mas podemos sentir os seus efeitos.
             
Por exemplo, não vemos nossa inteligência, porém sabemos que a temos e fazemos uso dela em liberdade e consciência. Assim é crer e compreender que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. Não vemos a Trindade na atmosfera do físico e palpável, entretanto, sentimos seu efeito em todo nosso ser por meio da fé, que nos abre ao mistério do sagrado e gera em nós uma mudança de mentalidade segundo a vontade de Deus, na qual está nossa real liberdade, dignidade e esperança.  
             
Outro exemplo: O ser humano, tal qual nos apresenta a psicologia e a psicanálise, é composto por três dimensões que o humanizam, que o tornam humano, são elas: o corpo, a mente e a alma ou espírito. A pessoa humana é uma só enquanto ser vivo e racional, todavia dentro dessa uma pessoa habitam três elementos, três dimensões que lhe dão a identidade existencial própria: ser um humano. Assim é também Deus em seu mistério trinitário, é um único Deus, Senhor do tempo e da história, composto por três personificadas dimensões sagradas e misteriosas que a nós se revela como Pai, Filho e Espírito Santo na plenitude dos tempos quando se fez gente igual a gente no mistério da encarnação em Jesus de Nazaré    
            
A Trindade Santa é, então, a expressão da revelação do mistério de Deus que Jesus Cristo (segunda Pessoa da Trindade) revelou de maneira plena com sua vida, obra e virtudes.  A Trindade é a expressão da ação de Deus na história da salvação. Expressão criadora (o Pai), redentora (o Filho) e santificadora (o Espírito Santo) do gênero humano. A Trindade Santa é a comunidade perfeita, por isso chamada de Trindade indivisa, isto é, na qual não há divisão e nem competição ou egoísmo.
             
A Igreja de Cristo, que é Una, Santa, Católica e Apostólica, por índole é a comunidade de fiéis da Santíssima Trindade, e, portanto, deve espelhar-se na relação de unidade entre Pai, Filho e Espírito Santo, para jamais perder o seu caráter trinitário: a comunhão.  
             
Em suma, Com os santos e anjos, adoremos e digamos: “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo - Assim como era no princípio, agora e sempre.”
 

A família em nosso tempo


Família e atualidade
O desafio de ser e ter família
Por Marcos Cassiano Dutra

Introdução     
            É inegável que o Século XXI sinaliza uma época de mudanças no comportamento da humanidade; esse fenômeno é o efeito social dos avanços tecnológicos e científicos proporcionados pelas pesquisas nessas três áreas do conhecimento humano. Avanços sempre bem vindos, desde que primem pela melhor qualidade de vida corporal, mental e espiritual do homem.
            Inserida na realidade desses avanços que quebram paradigmas e inauguram um novo período na história, a família contemporânea precisa ser astuta, a fim de não se deixar influenciar de maneira negativa pela ideologia moderna da “evolução” familiar, cultural e social a todo custo e sem medir as trágicas conseqüências dessa mentalidade efêmera.

Ver a realidade         
            Um dos responsáveis por essa mudança no comportamento sócio-familiar hodierno é o fenômeno da instantaneidade, mentalidade que visa somente o momento presente, despreza o passado e não pensa no futuro. Esse tipo de pensamento difuso é o que proporciona a constituição equivocada de casais por ocasião, algo que não contribui para um verdadeiro planejamento conjugal e familiar adequado. Uma família que nasce a partir do erotismo, dificilmente se estabelecerá como espaço da vida que germina da conjugalidade amorosa, sincera e comprometida entre homem e mulher.            
            Outro dado interessante é a renda dupla entre esposo e esposa, ambos presentes no mercado de trabalho. Essa é uma característica dos lares atuais, porém, isso não deve legitimar o distanciamento entre pais e filhos devido à carga horária de trabalho dos esposos. Nesse sentido, a organização de espaço e tempo para a educação e a presença paterna e materna na vida dos filhos é de suma importância, dado que a formação de uma criança se dá por meio da transmissão dos valores humanos, sociais, cívicos e religiosos, bem como no limite com consciência, cuja tarefa específica é dos pais. Crianças cujos pais são ausentes tornam-se adultos deficientes no quesito saúde no convívio social e na relação consigo mesmo, na administração de suas alegrias e tristezas.



Julgar a realidade    
            A cultura pós-moderna do “apareço, logo existo” influência pais e mães, que utilizam dos próprios filhos como plataforma de reconhecimento coletivo, por meio da exposição social infantil. O que eles não sabem é que esse tipo de atitude destrói o desenvolvimento natural de uma criança, anulando sua infância e deformando, em longo prazo, sua maturidade nas etapas posteriores (adolescência, juventude e vida adulta).
            A criança deve ser tratada como criança e viver com saudável intensidade a infância. Torná-la um “mini-adulto” é desfigurá-la, ou seja, tornar a criança uma caricatura de gente. Isso perpassa o aspecto da linguagem, das ações e das roupas, isto é, do comportamento infantil.
            Os meios digitais como a internet e o celular, entre outros aparelhos, ajudam a criança quando os pais realmente disciplinam e as acompanham na utilização desses recursos atuais de comunicação. Quando o acompanhamento educativo não acontece, internet e celular se tornam instrumentos de perigo e insegurança, haja vista a distância entre o domínio técnico e o domínio ético para o manuseio coerente desse aparato digital.
            É fato! As crianças de hoje já nascem envolvidas pelo mundo digital, por isso adquirem com maior facilidade incrível o domínio dessa tecnologia. Cabe aos pais educar seus filhos (nativos digitais) para o domínio ético, tão importante quanto o técnico.

Agir na realidade      
            Em suma, família, cultura e sociedade estão em constante relação. Portanto, é pertinente haver uma coerente integração entre elas, caso contrário multiplicar-se-á famílias que não formam filhos para a cidadania, uma cultura que não motiva para o bem, a paz e a justiça e uma sociedade não integrada, pois a base da civilização do amor está radicada no núcleo da família.    
 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Cadeia ou cidadania para o menor infrator?


Maioridade penal e violência



Na semana passada, mais uma vez assistimos a fatos de violência inaudita, com acréscimos estarrecedores de maldade, como foi o caso da dentista “incendiada” num assalto no ABC Paulista, por não ter à mão a soma satisfatória para entregar aos larápios. Detalhe a mais: um menor assumiu a autoria da ação. Sempre mais crimes envolvem menores de idade. Não passa desapercebido, que muitos menores também são vítimas de ações criminosas, perdendo a vida precocemente.


De maneira inevitável, volta a discussão sobre a redução da idade penal no Brasil. Creio que a questão deva ser vista num contexto mais amplo, pois a simples imputação de responsabilidade criminal não é a verdadeira solução para o problema. Há que se perguntar sobre as razões dessa realidade preocupante, para tomar medidas para diminuir o fenômeno, se não se consegue erradicá-lo de vez.


Examinemos alguns fatores presentes no aumento da criminalidade juvenil. Muitos adolescentes, e até crianças, são “usados” por criminosos adultos, que se valem da não punibilidade de menores; isso mereceria penas bem mais severas aos eventuais “mandantes” e responsáveis de organizações criminosas, que manipulam ou envolvem menores.


Outro fato lamentável é que o crime compensa e, por isso, torna-se atraente para adolescentes e jovens, que vêem nele uma oportunidade de ganhar a vida; a ineficiência dos órgãos de segurança e de justiça, somada a persistentes fatos de corrupção, acaba abrindo espaços para a impunidade e para o desenvolvimento de organizações criminosas, que também arrebanham adolescentes e jovens. A escola, a formação profissional, o esforço disciplinado para conquistar o espaço na vida de maneira honesta perdem interesse para essa outra aposta para “vencer na vida”, geralmente ilusória e temerária; a maior parte dos adolescentes e jovens que entra no crime acaba eliminada bem antes de conquistar seu próprio “negócio”.


É preciso admitir também que há uma certa complacência cultural e social em relação ao crime; as pessoas sentem-se impotentes para reagir e lutar contra o crime e acabam se resignando numa atitude fatalista, achando que nada pode ser mudado. Fica-se com a consciência calejada diante das notícias diárias sobre chacinas, atos de violência e maldades de todo tipo. É nebulosa a consciência comum sobre o valor do bem e sobre o direito à justiça e à segurança. Vale a pena ser honesto? E o envolvimento de agentes de segurança e de justiça em atos de corrupção aumenta essa incerteza da sociedade.


Mas há um fator ainda mais preocupante. O crime é muito mais divulgado, quase em forma de apologia, do que a prática do bem e a educação para a vida virtuosa e honesta. É uma forma de educação subliminar para a vida desonesta. Alguém já viu nos Meios de Comunicação um apelo claro à prática da justiça, à honestidade, à virtude por iniciativa do Estado? Ou alguma chamada em que se diga claramente que os atos de violência, quaisquer que sejam, são reprováveis e devem ser evitados? Quem está educando para a prática do bem e para a vida honesta?


Mas quem ousa falar publicamente em honestidade e em virtude, sem ser logo tachado de “conservador” e “careta”? Neste caso, de maneira estranha, dir-se-á que isso é moralismo e que não é competência do Estado educar para atitudes morais e virtudes. E qual seria a educação que o Estado deve dar? Será o próprio Estado que, através de suas instâncias competentes, deverá investir pesadamente para reprimir e punir as ações criminosas. Não valeria a pena investir bem mais numa educação preventiva explícita contra a criminalidade? Por que a educação para a virtude e os comportamentos dignos não merece investimentos semelhantes aos encargos resultantes das condutas criminosas?


Há ainda um fator a ser considerado: se os desvios de conduta e as atitudes anti-sociais são fruto de uma deseducação social, deve-se acrescentar que também resultam de uma falta de educação de crianças e adolescentes por parte de quem deveria fazê-lo. Falo da família, que sempre de novo é cobrada quando aparece um menor infrator. Mas quem apóia a família e estimula os pais no cumprimento de seu dever? Prefere-se desmantelar a família e tirar-lhe a capacidade e até a competência para educar. Como podem ser educados os filhos de pais ausentes? Como pode educar uma família, cada vez mais desfigurada na sua natureza e competência? Como educar, se falta quase tudo em casa, se escola e família não interagem adequadamente? Como educar, se há estímulo aberto a toda sorte de promiscuidade sexual?


Falar em diminuição da “idade penal” pode ser uma reação de pânico diante de situações dolorosas, que merecem todo nosso respeito e solidariedade. Mas a solução para a criminalidade juvenil precisa ser vista num contexto mais amplo.


Autor: Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo.

Fonte: Site da Diocese de Piracicaba

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Celebrando o mês de maio


Por que Maio é o mês de Maria?
Por Prof. André Luiz Oliveira


Com certeza esta pergunta passou por nossas mentes muitas vezes... Como fiel devoto da Virgem Maria, irei ajudá-los a descobrir como Maio se tornou o mês de Maria. Maio é o quinto mês do ano civil. No Hemisfério Norte, por volta do dia 21 de Março dá-se o início da Primavera, enquanto no Hemisfério Sul vive-se em pleno Outono.
A devoção surgiu no século XIII, na Europa, onde Maio é o mês das flores e se encontra na plenitude da Primavera, neste tempo as árvores florescem e os jardins se ornam com flores de todos os tamanhos, odores e cores. Para homenagear a Mãe do Filho de Deus, alguém muito sabiamente escolheu este mês por ser ele todo florido, fazendo um comparativo de Maria: “A flor mais bela do jardim de Deus”. E pessoalmente acredito que isso se reforçou pela semelhança das palavras: Maio e Maria.
Depois da dedicação do mês de Maio à Maria, durante o mês inteiro, tinha-se por costume realizar coroações das imagens de Nossa Senhora, por crianças vestidas de anjos, que homenageavam Maria, Virgem e Rainha, colocando-lhe véu, palma, rosário à frente dos fiéis reunidos, enquanto cantavam cânticos e hinos a ela dedicados, no final, crianças jogavam sobre ela pétalas de flores. Historiadores dizem que as coroações das imagens de Nossa Senhora começaram depois de 1849, pela ação dos Padres Lazaristas e das Irmãs da Caridade.
Dedicar um mês a Maria, com certeza é uma prática bem antiga, ela já faz parte da tradição do povo, que nas igrejas e capelas do mundo inteiro lhe dedicam ofícios, ladainhas, terços e as belas coroações. Essa é a maneira carinhosa de reconhecermos aquela que trouxe ao mundo o Filho de Deus (cf. Lc 1,26-38), pois não há “Jesus sem Maria e Maria sem Jesus”.
Ao recordarmos a Mãe estamos recordando o Filho. Que neste mês dedicado a Maria você possa fazer, através da Virgem Santíssima, um encontro com Jesus e que este mês seja todo especial em sua vida. 

As artes e a fé cristã


O Teatro na Evangelização
Por Denis Espanhol

A arte é o que mais aproxima o ser humano de si mesmo, ou seja, é uma ferramenta pela qual o ser humano se interioriza. Ela pode ser pensada como um desenho em que as cores serão os sentimentos nela empregados. Portanto, é pertinente usar nossa fé como uma cor da arte. Nesses sentido o teatro vem como algo que engloba a música, a poesia e a encenação em sintonia com a evangelização.
            
Quando vamos ao teatro, geralmente nos envolvemos com os personagens apresentados, numa espécie de ligação, aí rimos, choramos e até nos indignamos. Essa conexão pode ser vista como uma compaixão quando a plateia começa a se colocar sentimentalmente no lugar do ator que está representando. E isso nos faz entrar em contato com a nossa humanidade. É um processo incrível e, sempre que possível, bonito de se ver. Para nós cristãos é de suma importância que possamos cativar o nosso povo com os sentimentos virtuosos da vida de Jesus. É com essa missão que devemos ver o teatro dentro das nossas comunidades paroquiais.
            
Essa prática de evangelizar teatralmente aconteceu pela primeira vez no Brasil no século XVI, quando a Companhia de Jesus (Jesuítas) trabalhava com o objetivo de evangelizar os povos nativos desta terra. Como a comunicação era difícil, devido à diferença de linguagem entre índios e portugueses, eles realizavam encenações mais didáticas para que a mensagem pudesse ser compreendida. Apesar de hoje podermos entender tudo o que se fala nas missas, pois todos falamos a mesma língua, ainda é difícil a compreensão de alguns assuntos de fé, presentes no Evangelho ou no conteúdo das homílias, no qual o teatro pode ser objetivo e bem vindo como mais um instrumento de catequese dos fiéis.
            
Geralmente, os grupos teatrais das paróquias são liderados por algum setor jovem, isso faz com que haja uma movimentação maior entre eles. E isso é muito bom, pois trabalham para a evangelização de uma forma muito fácil de se identificarem. O motivo vai de se quebrar a timidez, cuidar da sonoplastia e até de escrever os textos teatrais. Entretanto é importante que esses grupos tenham a consciência de não atrapalhar a liturgia da celebração, deixando suas intervenções para momentos apropriados como ao final das celebrações ou em outros eventos eclesiais como os festivais vocacionais, etc.
            
O Evangelho é um tesouro sagrado da fé cristã e o objetivo de evangelizar por meio do teatro contribui na valorização da mensagem evangélica. Deixemos que a arte usufrua disto em benefício da fé e do bem. Haja vista que o teatro vem a ser mais uma forma criativa de levar Deus ao coração do homem contemporâneo.