sábado, 10 de dezembro de 2011

Fé e política

Qual natal comemoramos?
Por Guilherme Demarchi - Linguista

A celebração do Natal pode nos trazer muitas reflexões acerca do modo como o vivenciamos e, mais do que isso, do modo como a sociedade capitalista trata as coisas espirituais e culturais, transformando-as em meras mercadorias postas à venda, com preço definido e prazo de validade. De acordo com os valores deste sistema econômico, no Natal passa a ter mais importância a venda de presentes do que a reunião com a família e os amigos. A estrela da festa não é Jesus, mas qualquer personagem que seja símbolo de consumismo e que provoque nas crianças e sede implacável por presentes caros.
           
Longe de uma visão pessimista, faz-se necessária uma reflexão sobre o nascimento de Jesus. Em primeiro lugar, sobre o sentido deste nascimento: o menino nasceu para a salvação de todos os povos, de todas as pessoas. A conseqüência sob uma visão teológica é que ninguém está fora dos planos de Deus e, sob o aspecto político, torna-se dever dos cristãos a busca por uma sociedade justa e igualitária, sem distinções que firam a dignidade de cada pessoa, preservando-se a diversidade humana.
           
A cena do nascimento é reveladora. Reis e pessoas do povo não têm distinção diante do menino, pois o que importa não são as roupas e posses, mas o que se traz em seu coração, a humanidade presente em cada um que está sendo oferta como presente. O ouro trazido pelos magos não vale como ouro, mas como figura simbólica do rei-menino que escolhe nascer numa manjedoura rodeada de animais.
           
Instaura uma cosmovisão em que não há distinção entre céu e terra e, apesar de toda a diversidade humana presente, esta não é motivo de desigualdade. Se por um lado é mostrado que a importância deva ser dada à adoração profunda e simples de Deus por toda a criação, pelo outro se afirma que as diferenças e desigualdades sociais jamais devem ser justificadas pela religião cristã.
           
Assim, não há problema em se comemorar o Natal com enfeites, luzes e presentes. Deve ser, na medida do possível e desejável, garantido o conforto dos participantes da festa com o apoio de um ambiente que ajude a promover alguma reflexão sobre a festa. Mas não se pode esquecer-se de voltar o coração ao menino, deixando-o aberto à mais profunda adoração, que leva à  transformação e que nos impulsiona a exteriorizar o sentido do Natal, promovendo a justiça social, combatendo as diferenças, as injustiças, os preconceitos, de modo que o mundo todo se torne espelho daquela manjedoura.    

(Texto extraído da Revista O Milite, página37 – Dezembro de 2011).

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