Humanidade e divindade
Por Marcos Cassiano Dutra
Os nomes que dão a ele são distintos, culturais e dogmáticos, carregam consigo todo o valor e validade de uma teologia própria, de modo que cada povo e suas expressões religiosas o sentem, vivem, interpreta e celebra com um caráter todo especial e específico. Quem é ele? É o mistério, o sagrado, o divino escondido e revelado de maneira diversa em toda a humanidade como semente da fé, e na plenitude dos tempos revelado como Verbo Divino humanizado em Jesus Cristo , o homem virtuoso de Nazaré.
Se faz presente na religião como força mística que anima o ser humano na prática do bem. Está no mundo como algo sacralizado que envolve o cosmos, os seres vivos, o tempo e a história. Está na dúvida do ateu como questionamento misterioso, nas pesquisas científicas como matéria prima e causa eficiente de todas as coisas biológicas. Está na política como ideal cívico de uma sociedade fraterna e justa, na escola como conhecimento e aprendizado. Na espiritualidade como metafísica da contemplação e na música como melodia da criatividade artística que explodiu a dinamite da vida no caos do universo quando quis criar céus e terra.
Humanidade e divindade se entrecruzam nesta relação transcendente entre emissor e receptor do conteúdo divino. O homem que crê, pergunta e confia e o imaterial que se autorevela, dialoga simbolicamente e se determina como “Aquele que É”. Anular o aspecto divinal da existência do homem é ignorar uma parte essencial da corporalidade humana, que o coloca diante da crença como elemento fundante da busca primeira de todos os seres humanos: a escatologia, ou seja, o depois da finitude material, a morte, a eternidade.
Sua presença transcendente, misteriosa, divinal, continua a fomentar no homem o desejo de conhecê-lo, de aproximar-se mais desse algo maior por meio da fé em seus momentos contemplativos e intelectivos, dado que o divino se revela, ou seja, vem ao encontro do homem, pois o homem é um ser voltado para o divino, portanto é um ser transcendental. Então se pode dizer que a revelação é um conhecimento? Sim, porque possibilita ao homem conhecer a divindade e fazer sua hermenêutica sobre ela.
Mas como o conhecimento adquirido por intermédio da revelação pode se relacionar com outros conhecimentos humanos? O conhecimento revelado relaciona-se com os outros conhecimentos humanos no sentido de que vários conhecimentos humanos colaboram com o conhecimento revelado, fornecendo alguns fundamentos teóricos que auxiliam a compreensão daquilo que se conheceu por meio do que foi revelado. Tudo isso acontece devido ao dado imprescindível da fé.
A fé para Santo Agostinho é essencial para compreender porque é, segundo ele, o “procedimento surpreendente para a verdade”. Pela fé se aceita primeiro sem provas o que se trata precisamente de provar. Ela não é irracional, visto que está fundada na credibilidade de alguns testemunhos e à aquilo que será submetido à discussão racional.Logo, a razão também é imprescindível.
A relação que se estabelece entre fé e razão está expressa na própria máxima agostiniana - “Crer para compreender. Compreender para crer”. Fé e razão são as duas forças que nos levam a conhecer, por isso caminham juntas, colaborando-se mutuamente, pois a busca da sabedoria e a vivência do ideal da fé cristã são a mesma coisa. As conseqüências desta relação para o ser humano baseia-se, primeiramente na dificuldade e multiplicidade dos problemas a resolver para dar a vida uma orientação certa e sábia (crer para compreender) e no fato de que ninguém crê “se antes não tiver considerado que deve crer” (compreender para crer).
Agostinho nos ajuda a entender os fatores transcendentes que instigam o homem no contato com o divino. Humanidade e divindade são em si um composto único, visto que o humano é fruto da árvore atemporal daquilo que transcende o que é temporal. Falar do mistério e buscá-lo, celebrá-lo, interpretá-lo, nada mais é que mergulhar dentro do próprio existir para encontrar os sinais desse sagrado que preenche de esperança e dá sentido a vida humana.
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