sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O Catecismo da Igreja Católica

O Catecismo da Igreja
A dimensão da fé católica
Por Marcos Cassiano Dutra
 
Introdução

            O Catecismo da Igreja é um importante documento sobre a doutrina católica, o qual foi promulgado pelo saudoso Papa João Paulo II no dia 11 de outubro de 1992. A palavra "catecismo" origina-se do termo grego katecheo que significa informar, instruir e ensinar. Nele encontram-se distintos tópicos que circundam a vida e fé cristã, os quais são expostos, com o objetivo de formar e direcionar o povo de Deus, explicando a doutrina da Igreja.
            Neste presente artigo, uma síntese breve da primeira parte do Catecismo, será argumentada a questão da fé, em quatro tópicos que se relacionam entre si: fé, uma graça de Deus; fé, de quem recebemos; fé em Jesus Cristo e o depósito da fé, visto que, a fé por nós hoje professada é resultado de todo um processo divino e histórico, nos quais estão a Sagrada Escritura, a sagrada Tradição e o Magistério da Igreja. Uma base importante que sustenta o catolicismo.

a) Fé, uma graça de Deus

            Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa, a fé é uma convicção da existência de algum fato ou de veracidade de alguma asserção. Graça é um dom sobrenatural, concedido por Deus como meio de salvação. Estas duas realidades (fé e graça) caminham juntas, ou seja, fazem parte da vida humana, dado que, como escreve o próprio Catecismo, “O homem é, por natureza e por vocação, um ser religioso. Porque provém de Deus e para ele caminha”, isto é, a essência humana está em Deus, o qual transcende o ser humano pela fé e a ele se revela pela graça, por meio de uma pedagogia divina.
                        Deus vem ao nosso encontro
                        Homem, ser voltado para Deus
                        Logo, um ser transcendental.

b) Fé, de quem recebemos?

            A revelação é um conjunto de verdades sobrenaturais manifestadas por Deus ao homem através da inspiração e iluminação comunicada aos Patriarcas, Profetas e Apóstolos. Deus é quem toma a iniciativa de revelar-se (fazer conhecer-se), por isso vem ao encontro do homem (ser dotado de fé e graça). A revelação consiste em uma única base: o projeto benevolente de Deus (aliança), e este projeto ou aliança acontece dentro de um período chamado história da salvação, onde Deus revela-se ao homem por meio de uma sequência de fatos, coisas e pessoas. Na criação revela-se comunicando-lhe gradualmente seu próprio mistério através de ações e palavras; em Noé uma aliança com ele e todos os seres vivos; em Abraão uma aliança com ele e sua descendência, seu povo, ao qual por intermédio de Moisés libertou da escravidão e revelou sua lei; pelos profetas, preparando este povo a acolher a salvação destinada á humanidade inteira.
            E na plenitude dos tempos Deus revelou-se plenamente ao homem na encarnação de seu próprio Filho (rosto humano de Deus e rosto divino do homem), no qual estabeleceu sua aliança eterna, visto que, o Filho é a palavra definitiva do Pai, pois, após ele não há outra revelação.
            Todo este conteúdo histórico de fé, foi guardado, transmitido e interpretado de duas formas: oral e escrita. Desta forma deu-se a transmissão da revelação divina: pela Bíblia, pregação e Tradição Apostólica com o auxílio do Espírito Santo, intérprete da Escritura.

c) Fé em Jesus Cristo

            Nossa fé é cristã, visto que Jesus é o Filho de Deus. Portanto, acreditamos em Jesus Cristo. A respeito disso o Catecismo da Igreja iluminadamente diz. “Para o cristão, crer em Deus é, inseparavelmente, crer naquele que Ele enviou, “seu Filho bem amado”, no qual Ele pôs toda a sua complacência; Deus mandou que o escutássemos. O próprio Senhor disse a seus discípulos: “Crede em Deus, crede também em mim (Jô 14,1). Podemos crer em Jesus Cristo por que ele mesmo é Deus, o Verbo feito carne: “Ninguém jamais viu a Deus: o Filho Unigênito, que está voltado para o seio do Pai, este é o único que o conhece e pode revelá-lo. Por ter ele “visto o Pai” (Jô 6,46), ele é o único que o conhece e pode revelá-lo. Por isso cremos nele e buscamos praticar seus ensinamentos expressos nos evangelhos.     

d) Depósito da fé

            Depositar significa guardar em lugar seguro. Este lugar vem a ser o depósito, onde o depositante deposita algo que lhe é valioso, e, por conseqüência de sua valiosidade deve ser protegido pelo depositário (aquele que recebe o depósito).
            Deus é o depositante, o qual deposita o tesouro valioso da revelação no local seguro que é a Igreja (depositum fidei), da qual os apóstolos (os bispos e o papa) são os depositários, os guardiões deste patrimônio sagrado contido na Escritura e na sagrada Tradição. A Igreja, por meio de seu mandato divino tem pois, a missão de transmitir e interpretar a revelação (tesouro de fé) na sua doutrina, vida e culto.

Refletindo a vida humana e cristã

Vida cristã e realização humana
Dom Fernando Mason
Bispo da Diocese de Piracicaba

Realização, como nós a representamos, é o término de um desenvolvimento: uma potencialidade que se desdobra até alcançar a plenitude de atualização. Para isso é necessário – dizemos – afastar os obstáculos que bloqueiam o desenvolvimento e criar um ambiente propício a ele.
Essa concepção tem como modelo o crescimento de uma planta. Surge, porém, a questão: será que esse modelo é adequado, em se tratando de uma realização humana? Quando digo: eu quero me realizar, a que tipo de realização me refiro: profissional, afetiva, intelectual, religiosa? Dessas inumeráveis realizações, qual é para mim a realização que comanda, unifica e move todas as outras realizações parciais? Dizemos: a realização humana é o desenvolvimento pleno de todas as potencialidades: como isso è possível, se cada um é limitado. A realização como fruto do meu desejo é de fato uma realização "humana"?
Estas perguntas mostraram que não sabemos bem o que buscamos. A realização, portanto, é tarefa de um empenho: do empenho da busca pelo sentido radical da minha vida.
Isso significa: a cada passo da nossa vida aquilo que è familiar se perde no estranho. Ao nos perdermos no estranho, a segurança do familiar desaparece e pairamos no ar. Aos poucos, da escuridão do estranho começam a surgir novas perspectivas. À luz de novas perspectivas reassumimos o passado e o futuro. Nesse reassumir se desvela mais claro o sentido do que pensávamos saber no passado familiar. Esse desvelar no entanto é ao mesmo tempo um velamento, pois surgem novas questões futuras mais agravantes para a nossa experiência.
Aos poucos o peso da nossa experiência pesa sempre mais, nos tornamos grávidos do sentido da vida, nos abrimos mais e mais à profundidade humana, vamos abandonando aos poucos a onisciência unidimensional da perspectiva do nosso pequeno eu.
Crescer em idade e em sabedoria diante de Deus e dos homens é tornar-se cada vez mais vazio de si mesmo. Com efeito, a vida vai tirando aos poucos tudo o que possuíamos: a saúde, as forças, a eficiência no trabalho... Até mesmo certas virtudes que conquistamos vão desaparecendo. Tudo isso acontece para que nos despojemos inteiramente do orgulho, do amor próprio e apareçamos um dia diante de Deus completamente vazios, para podermos acolher em cheio o imenso amor de Deus.
Portanto o problema da realização humana é: onde está, em que consiste a paixão de nossa vida, que consiga transformar todas as vicissitudes do cotidiano em fontes de experiências que me aperfeiçoem, que me façam crescer naquilo que desejo ser?
O que queremos ser jamais nos é dado como algo pronto, fixo e claro. No caminhar da vida ele vem a nós, manifestando-se de crise em crise. Crise é volta ao vigor originário. De crise em crise somos levados a tomar nova decisão que purifica a nossa mente de acessórios acidentais, de visões parciais e imaturas, e assim somos conduzidos de volta ao sentido mais profundo de nossa vida. As dificuldades da vida que provocam a crise são convites para o regresso à fonte essencial. Mas depende do nosso vigor aproveitar de um tal acontecimento negativo para o nosso próprio bem.
As dificuldades da vida, os sofrimentos existem para que nós comecemos a criar em nós uma visão mais ampla da vida, comecemos, de crise em crise, buscar uma realização maior do que aquela em que estamos instalados. A vida é nesse ponto intransigente, ela é uma boa mestra. Ela nos perseguirá com sofrimentos, neuroses, complexos e dificuldades, até que nos decidamos a buscar uma identidade mais profunda e maior para nós. Mas na consumação de nossa busca, no auge de nossa ambição a vida nos mostrará que é preciso abandonar-nos, nessa busca, à gratuidade do mistério de Deus, na abnegação do poder, da vontade, como a um outro eu maior, insondável, que é a saudade, o desejo dos nossos corações. Essa tarefa só podemos realizar nós mesmos, sozinhos diante de Deus.

A catolicidade (universalidade) da Igreja

Presença da Igreja no mundo
Dom Eduardo Koaik
Bispo emérito da Diocese de Piracicaba

A Igreja deve estar presente no mundo, agindo de forma concreta e eficaz para a construção do Reino. Assim o faz imitando seu Fundador que nos ensina que “Deus amou de tal forma o mundo que entregou seu Filho único para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3, 16) Assim como Jesus é enviado ao mundo pelo Pai, a Igreja é enviada ao mundo por Cristo.

A Igreja está no mundo, mas não se confunde com o mundo. Por isso que Jesus afirma: “Vocês não são do mundo”. (Jo 15, 8) A Igreja não deve afastar-se do mundo, mas guardar-se da influência do “espírito do mundo”, dentro dessa perspectiva do Divino Mestre.

A presença de Jesus no mundo não se limitou ao interior do templo. Ele sempre esteve no meio do povo. Assim, a Igreja não pode “fechar-se na sacristia”, mas estar presente, com palavra e ação, buscando transformar o mundo.

A história da Igreja ao longo dos séculos é cheia de luzes e sombras. Iniciou sua missão debaixo de perseguições, era a Igreja das catacumbas. No século IV, o imperador Constantino fez do cristianismo a religião do Estado. Desta forma, durante a Idade Média, ora era dominada pelo poder temporal, ora ela dominava o poder temporal. Foi o tempo da cristandade, em que Igreja e mundo eram uma só realidade. A partir do Renascimento, no século XVI, a cristandade começou a ser rompida: a Igreja ficou de um lado e o mundo do outro. Ser cristão era sair do mundo e, nesse espírito, surgiram várias ordens religiosas.

No século XVI, deu-se a descoberta do Brasil. A Igreja que para cá veio foi a que existia em Portugal, unida ao poder temporal. Nesse contexto entende-se o que o poeta Camões escreveu em “Os lusíadas”, seu poema imortal: “E (canto) aqueles reis que a fé e o império foram dilatando”. A Igreja era unida ao poder temporal e, no Brasil colônia e império, caminhou deste modo, unida ao rei de Portugal e depois ao imperador.

Com a proclamação da República, houve a separação. A partir daí, a Igreja vem afirmando cada vez mais sua independência, consolidada com o surgimento da CNBB. Hoje o Brasil é uma nação de pluralismo religioso e cultural e, nessa nova realidade, deve marcar presença pública firme. Sem querer dominar, não pode omitir-se e deve abrir-se ao diálogo. Sua pastoral não pretende conquistar impondo-se, mas sim pelo testemunho, como ação de fermento, sal e luz.

A presença pública da Igreja deve realizar-se sobretudo pela afirmação dos valores éticos na política, na ordem econômica, na ciência e, principalmente, na ordem social. Presença pública que testemunha os valores do Evangelho, pela palavra e pela ação na política, na opinião pública, no campo social.

A Igreja no Brasil carrega uma imagem muito positiva junto ao povo, construída a partir da “opção preferencial pelos pobres”. Sua presença no mundo se realiza pela palavra e pela ação. Palavra que anuncia os valores do Reino e denuncia os contravalores, como a mentira, a corrupção, a violência e outros. Ação que se realiza, de forma direta, colocando-se ao lado dos movimentos populares, sindicatos, associações, centros comunitários e outros organismos; de forma indireta, através de suas próprias organizações, sobretudo a Pastoral Social, realizando a caridade assistencial, promocional, libertadora. A Igreja não deve inspirar só obras sociais, mas, acima de tudo, a luta pela justiça, a defesa dos direitos humanos, a exigência do bem comum. São os princípios que fundamentam a Doutrina Social, que é o Evangelho aplicado na realidade social.

Com essa presença pública, a Igreja objetiva mudar as estruturas da sociedade de “menos humanas para mais humanas”. A fé deve ser a fonte de inspiração de um processo de transformação que leva à construção de uma sociedade de cidadãos livres, iguais e participantes. Como afirma o Concílio Vaticano II, no decreto “Apostolicam Actuositatem” (n. 5), “a missão da Igreja não consiste só em levar aos homens a mensagem de Cristo e sua graça, senão também em penetrar do espírito evangélico as realidades temporais e aperfeiçoá-las.”

Fonte: http://www.diocesedepiracicaba.org.br/

A Musicalidade litúrgica ontem e hoje

A música litúrgica
A importância do canto dentro da celebração
Por Marcos Cassiano Dutra
A liturgia é o serviço sagrado por meio do qual se ministra os sacramentos, também é ação celebrativa da comunidade de fé dos discípulos de Jesus. Todo este sentido servidor e ativo (dinâmico) compõe a celebração dos mistérios que envolvem a fé cristã e de tudo aquilo que a eles nos ligam; portanto, celebrar é algo importante na vida daqueles que acreditam em Cristo e almejam viver como Ele.
           
Dada a importância do ato de celebrar a fé na vida, desde os primórdios, as comunidades cristãs, já nos primeiros séculos, entenderam que o ritual não era algo qualquer, por isso mesmo, ao longo do tempo, foram estruturando a maneira com a qual celebravam a ceia do Senhor e os demais sinais instituídos, direta ou indiretamente, por Jesus para a santificação dos cristãos, fundamentados em um clássico critério de nobreza e simplicidade da ação litúrgica, critério esse retomado pela reforma conciliar do Vaticano II.
                
A liturgia é nobre porque está inteiramente voltada para o mistério de Deus que é Pai, Filho e Espírito, ou seja, situa-se dentro do mistério para assim transmiti-lo, celebrá-lo. É simples porque jamais deve distanciar-se de sua essência celebrativa que é a fração do pão eucarístico e o lava-pés, a partilha e a caridade na gratuidade (diaconia). Com relação a todo este aspecto litúrgico, é oportuno recordar as sábias palavras de João Paulo II, “Que vosso modo de celebrar seja a própria expressão de vossa fé!”
           
E, para ressaltar tal nobreza e simplicidade e ao mesmo tempo motivar a participação dos fiéis nas celebrações, surge também na longa tradição litúrgica da Igreja a música como expressão musical daquilo que se celebra, seja ao acompanhar os ritos ou quando são em si o próprio rito. “As realidade que Deus quer revelar e comunicar na liturgia são tão grandes, tão profundas e inefáveis que o homem não consegue exprimi-las por palavras. Por isso, ele recorre a uma linguagem mais profunda” (Alberto Beckhauser, OFM).  O canto na liturgia é pois esta linguagem profunda, pedagógica e poética que auxilia todos na compreensão, contemplação e celebração da fé e sua mensagem salvadora (libertadora). Por isso o Concílio vai dizer que, “A música sacra é tanto mais santa quanto mais intimamente se articula com a ação litúrgica, contribuindo para a expressão mais suave e unânime da oração ou conferindo ao ritual maior solenidade” (Sacrosanctum Concilium, Cap. VI).
           
O canto dentro da ação celebrativa, como diz o Concílio, é sacro, isto é, sagrado, por isso jamais se canta na e sim a liturgia, com a assembleia celebrante, não são em vão as palavras de Santo Agostinho, “Queres saber em que creio, venha a igreja ouvir o que canto”. Cantar a música litúrgica é cantar nossa fé cristã católica e dignamente celebrá-la em comunidade assim como a igreja primitiva o fazia de forma nobre e simples. Se tudo isso for ignorado e relativizado, o que celebraremos?
            Para refletir:

  • Na minha comunidade paroquial a liturgia é bem celebrada e participada?
  • Lá na paróquia, os corais cantam na ou a liturgia?
  • O que eu, você, nós podemos fazer para melhorar esta situação?

Relativismo da instituição familiar

A família hodierna
Por Marcos Cassiano Dutra

 
A sacralidade da família humana é algo cuja essência precede sua aparência, antecedendo os dados biológicos e sociais que a compõem, pois advém primeiramente de algo maior, inexaurível, inefável e transcendente: Deus. É do desejo divino que provém à fertilidade humana e sua fecundação natural, é este anseio divinal e criativo quem dota de capacidades procriadoras o homem e a mulher, concedendo a ambos a missão humana, social e cristã da maternidade e paternidade, dentro de uma união estável e verdadeiramente amorosa, que Cristo identificou e elevou, indiretamente, a dignidade de sacramento. Relativizar, dentro do contexto social, a constituição natural da família humana é, portanto, colocar em risco a própria integração social, visto que, ela é célula mater de uma sociedade saudável, junto com sua dimensão eclesial de ser igreja doméstica e santuário da vida. Todo ser humano, homem e mulher, independentemente de suas posteriores opções de vida, possuem o mesmo soberano direito a uma família naturalmente constituída.
O reconhecimento civil da união homossexual com vistas à partilha de bens patrimoniais e acesso a créditos financeiros é um passo legislativo compreensível, no sentido de que visa garantir a esses grupos uma estabilidade financeira, iniciativa que prima pela não marginalização desta parcela da sociedade. Agora, equiparar tal união com a de característica heterossexual como sendo família, é um ato relativista e atentado contra o núcleo social que se desenvolve primordialmente no lar e amplia-se na realidade humana exterior e temporal (mundo). Logo, a proposta de lei para adoção de crianças, por pessoas do mesmo sexo, é colocar em risco a integração e identidade sócio-familiar, gerando confusão de papéis importantes, distintos e sagrados como a paternidade e maternidade, um atentado psicológico e desumano contra o futuro da nação.
Colocar o direito de ser e ter família de escanteio, rotulando como ultrapassado e preconceituoso é, por índole, esvaziar o depositum caritas (depósito de amor) que nela contém. “Só se ama aquilo que se conhece”. Enquanto se ignorar a importância secular da família humana naturalmente constituída dentro da sociedade, perder-se-á a oportunidade de conhecer e reconhecê-la, cada vez mais, como escola para a vida. Uma tradição social não constrói e se consolida fundamentando-se em argumentos fóbicos e teorias relativistas, generalizantes e falaciosas, pelo contrário, edifica-se no respeito a suas instituições importantes que salvaguardam sua estrutura integradora e formadora de cidadãos; a família é uma dessas instituições estruturais da sociedade, defendê-la e difundi-la é, antes de ser atitude cristã, uma atitude cidadã e consciente de quem realmente pensa no futuro sem abrir mão dos valores morais imprescindíveis para um assertivo progresso humano, neste alvorecer do novo milênio.

A mulher na vida da Igreja

Catequese eclesiológica
Os sacramentos e a mulher na Igreja
Por Marcos Cassiano Dutra

 

Os sacramentos são realidades divinas que tocam o ser humano na dimensão de sua vida cristã, visando santificá-lo no exercício da fé; por isso são sinais sagrados, por que nascem do Sagrado, Deus. Logo não são de autoria humanística, embora, pela ação providencial do Espírito Santo, ao longo da história da Igreja, foram identificados e organizados em sete pelos cristãos.
           
A essência sacramental é, portanto Deus, o qual é eterno e não está preso ao tempo, ou seja, é atemporal, por isso seus sinais sagrados (sacramentos), assim como ele, não estão presos aos modismos temporais, visto que apontam para a eternidade acompanhando a vida dos cristãos. Querer torná-los aquilo que não são é esvaziá-los de seu significado escatológico, isto é, tornar o sagrado profano.
             
A mulher e sua força feminina são importantes no mundo e na Igreja, velar por sua dignidade e visibilidade no ambiente de trabalho e religioso são iniciativas sociais e eclesiais oportunas, partindo das premissas de que homem e mulher são imagem e semelhança do criador e cidadãos com os mesmos direitos e deveres. Honrar a feminilidade da mulher no trabalho é sinônimo de salário e ambiente trabalhista dignos, acesso ao estudo, a saúde e participação política. No ambiente religioso é sinônimo de participação eclesial mais ativa nas pastorais, movimentos e organismos paroquiais, bem como a valorização da vocação religiosa, a exemplo de Maria, a qual colocou seu vigor feminino a serviço dos irmãos, na caridade, oração e sempre fiel ao seguimento de Cristo como discípula e missionária atenta as palavras do Mestre de Nazaré. Valorizar as mulheres da Igreja (meninas, moças, senhoras, mães e religiosas) é ofertar a elas, diariamente, a mesma flor que se deposita aos pés da Santíssima Virgem: a do amor cristão, que ama o próximo tal qual ama Deus.
           
Pelo Batismo cada cristão é ungido profeta, sacerdote e rei, participando assim do sacerdócio comum dos fiéis, que formam a Igreja, o povo sacerdotal que a Deus pertence e para ele caminha. Nesse aspecto, o argumento sobre a ordenação de pessoas do sexo feminino é falacioso e contraditório, por que ignora uma das características batismais citada acima: o sacerdócio comum dos fiéis batizados.
           
O Sacramento da Ordem está intimamente ligado ao ministério ordenado que é, por índole, uma vocação específica, assim como o sacramento e vocação para o matrimônio. Este chamado específico é entendido pela Igreja como presbiteral ou sacerdotal, se difere do sacerdócio comum dos fiéis, no sentido de que “confere um poder sagrado para o serviço dos mesmos fiéis” (Catecismo da Igreja Católica).  E esse serviço ministerial é exercido junto ao povo de Deus (é comunitário) pelo ensino (munus docendi), pelo culto divino (munus liturgicum) e pelo governo pastoral (munus regendi).
           
Especular a disciplina dos sacramentos é uma atitude católica e saudável, quando o objetivo é uma maior reflexão com reta intenção e sem o desprezo e abandono da espiritualidade cristã que os envolvem. Quando isso não acontece, infelizmente corre-se o risco de anular o caráter teológico-sacramental, aplicando-lhes ideologias feministas. Em suma, os sacramentos são sinais do sagrado para o humano e não do humano para o sagrado, e, a valorização da mulher dentro da estrutura eclesiástica é uma atitude a ser desenvolvida de forma assertiva, evangélica e responsável, sempre atenta ao magistério, caso contrário torna-se sensacionalista, fóbica e tendenciosa, fugindo de seu nobre ideal. 

O homem do campo e do altar

O trabalhador e seu trabalho no altar
Por Marcos Cassiano Dutra
 
Na sagrada liturgia da Missa, no momento do rito de apresentação das oferendas, o sacerdote, a Deus se dirige, em nome da comunidade de fé reunida, para bendizer o Criador e Pai pelas espécies do pão e do vinho, que como reza a ocasião ritual, é “fruto da terra e do trabalho humano”, ao passo que a assembleia responde: “Bendito seja Deus para sempre!”.

Deus, em seu infinito amor e poder, utiliza-se do fruto de nosso trabalho para dar-se a nós em alimento sacramentado, por meio de seu Filho eucarístico na ação transubstanciante do Espírito Santo, através do padre, que consagra solenemente tais alimentos humanos, para tornarem-se alimentos de vida eterna.

 Dentro de toda a mística que envolve este contexto celebrativo, não podemos esquecer de quem contribui de forma direta na confecção das matérias pão e vinho, ou seja, o homem do campo, que planta o trigo, dele faz farinha e o torna pão. Bem como daquele que cultiva a vinha e dela faz o vinho. São tantos os agricultores por esse Brasil, de pequena ou grande produção, que merecem nosso respeito, gratidão, oração e atenção cristã, visto que nosso pão de cada dia é possível graças a eles.
           
O próprio Jesus, certa vez, quis aproximar tanto a compreensão do mistério celeste de nós, que se comparou a si mesmo como videira, da qual somos os ramos e o Pai, o Pai do céu, é o agricultor. Rezemos: Senhor nosso Deus, abençoai todos os lavradores e suas lavouras espalhadas por esse País e pelo mundo inteiro. Acompanha-nos na defesa dos direitos e dignidade de quem mora e trabalha no campo, bem como na conquista da reforma agrária como sinal concreto de teu reino em nosso meio. Amém! Obrigado, Senhor, pelo homem do campo!     

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A importância do mês vocacional

Agosto, mês vocacional
Por Marcos Cassiano Dutra
 
A Igreja no Brasil, dentro de sua singular dinâmica pastoral, possue vários meses temáticos que tem a finalidade de auxiliar os fiéis cristãos na meditação de algum tema propício. O mês vocacional, celebrado sempre em Agosto, é uma destas ocasiões temáticas e meditativa. Sempre a questão das vocações foi algo enfocado, direta ou indiretamente, na vida da comunidade eclesial; Jesus nos Evangelhos pede aos cristãos que, rezem ao Senhor da messe para que envie mais operários, porque ela é grande, porém os operários são poucos.
 
Tais palavras do Mestre de Nazaré soam em nossos ouvidos como um apelo orante do Bom Pastor, visto que seu rebanho não deve perecer por falta de pastores bons, de pessoas dispostas a aderirem ao seu caminho, a sua missão, ao Reino de Deus, como colaboradores e colaboradoras nesta empreitada exigente, porque requer a renúncia do próprio eu, entretanto santificante, pois nos torna instrumentos de paz, de vida, de defesa dos direitos humanos como gesto concreto evangélico. 
 
Por isso o mês de agosto é propício no que tange um maior aprofundamento acerca das vocações na vida e na missão da Igreja, dado que neste período do calendário anual, com o passar das semanas, a sagrada liturgia nos oferece distintos e importantes exemplos vocacionais, por meio dos quais Deus continua a chamar. Recordemos alguns desses exemplos: Santo Afonso Maria de Ligório 01/08, São João Maria Vianney 04/08, Santa Clara 11/08, São Bernardo, abade e doutor da Igreja 20/08, São Bartolomeu, apóstolo 24/08 e Santa Mônica 27/08. Todos eles são nossos intercessores e amigos do céu, gente humana e santa, que nos ensina a ser santos em cada vocação específica que o Pai celestial semeia criativamente em nossos corações.
 
Oportuno também é lembrar de duas solenidades celebradas em Agosto – a Transfiguração do Senhor em 06/08 e a Assunção de Nossa Senhora no dia 15, além do Dia dos Pais no segundo domingo do mês. Jesus Cristo é, por excelência, o centro de nossa fé cristã, Aquele o qual faz o chamado: “Vem e segue-me”. Maria é uma referência em seu sim solícito ao chamamento que Deus a fez e a paternidade responsável é uma vocação e missão especial no mundo, em particular na família, igreja doméstica, espaço humano essencial onde se dá os primeiros passos para um convívio social saudável.
 
Ser vocacionado é uma condição consequente do discipulado de Cristo. Quem quer segui-lo é chamado a fazer parte da comunidade de fé dos que acreditam na proposta evangélica do Reino. Não existe cristão sem vocação. É ilusão pensar a vida cristã sem o aspecto vocacional, oriundo de uma espiritualidade fundante em nosso Senhor, do contrário esvaziar-se-ia todo seu significado escatológico, pois toda a vocação aponta para algo maior e transcendente: Deus, fonte de todo bem. Como diria o Beato João Paulo II, ''Deus não é um ser indiferente ou longínquo, pois não estamos abandonados a nós mesmos''. A vocação nos torna participantes da mística divina de ser presença transformadora e testemunhal do Bem Maior no mundo hodierno. Ele, que chama não nos abandona e sim nos envia. 
 
Bento XVI, no célebre livro-entrevista Luz do mundo, diz que – “Se a Igreja deixasse de existir, setores inteiros de vida entrariam em colapso”. Podemos afirmar que, se as vocações específicas deixarem de existir ou forem relativizadas, muitas vidas entrarão nesse colapso existencial citado. De todas as vocações, duas devem ser a motivação fundamental para a vivência das demais, estamos falando da vocação à vida, a ser pessoa humana e da vocação a ser cristão, pessoa de fé pelo Batismo. Se ambas são entendidas e vivenciadas dignamente, todas as outras conseguirão desenvolver-se de forma saudável e fundante dentro do processo humanístico de discernimento.
 
Celebrando em nossas dioceses, comunidades paroquiais, organismos pastorais e movimentos, o mês dedicado as vocações, roguemos ao Senhor da messe que conceda a graça da perseverança aos que foram chamados, do discernimento aos que se sentem chamados e que Ele não cesse de, em todos os tempos, fazer sempre o seu ardoroso convite aos homens e mulheres de boa vontade.

Catequese bíblico-mariana

O Magnificat
Por Marcos Cassiano Dutra

Grande é a devoção que o povo de Deus tem pela mãe de Cristo, a Santíssima Virgem. O Concílio Vaticano II, na Constituição dogmática Lumen Gentium, ao falar sobre a Virgem Imaculada, diz que “a devoção a Maria é um meio essencialmente ordenado para orientar as almas a Cristo e assim uni-las ao Pai, no amor do Espírito Santo”. Diante de tais inspiradoras palavras, queremos refletir sobre um dos cânticos bíblicos que a Sagrada Escritura nos apresenta por meio da narração de Lucas evangelista, o “Magnificat” (Cf. Lc 1, 46-56) canto de Maria, a mulher bendita de Nazaré: “A minha alma engrandece ao Senhor e exulta meu espírito em Deus meu salvador”.
           
No início do evangelho segundo Lucas, logo no capítulo primeiro, lemos a narrativa da Anunciação. Mais adiante, deparamo-nos com a atitude e o exemplo da caridade cristã de Maria ao visitar e auxiliar na gravidez de sua parenta Isabel. Prosseguindo nossa leitura, encontramos um hino entoado pela Virgem de Nazaré na ocasião da visitação à mãe do Batista; o conteúdo poético deste canto mariano tornou-se, ao longo dos tempos, uma tradicional oração dos cristãos na Liturgia das Horas. É um canto de ação de graças, mas também é um canto profético, pois, nas palavras de Nossa Senhora, está a presença de um Deus justo, misericordioso, protetor e atuante na história de seu povo, o qual cumpre sua promessa ao socorrer Israel, isto é, ao encarnar seu Verbo.
           
O “Magnificat” exalta a onipotência divina e sua santidade, ao mesmo tempo, alerta-nos a respeito das situações de pobreza, fome, injustiça e opressão presentes na realidade, as quais ferem a dignidade humana dos filhos e filhas de Deus. Frente a estes acontecimentos de morte, surge a mão do Todo-poderoso como sinal de esperança aos pequenos explorados; a força do braço do Deus cantado no “Magnificat” de Maria é uma força de justiça que assegura aos desprovidos o acesso aos bens básicos.
           
Este hino de Nossa Senhora é para nós hoje um convite à ação social cristã alicerçada nas palavras do Evangelho, convidando-nos ao nosso “magnificat” diário diante das situações e estruturas de marginalização e miséria existentes na sociedade. Da mesma forma que o Deus que Maria canta possui uma autoridade-serviço, também nós assim o devemos fazer por meio da solidariedade evangélica, a qual aprendemos ao ouvir o cantar da profetisa Virgem de Nazaré.
           
No conteúdo sagrado deste canto bíblico, está o sonho do reino acontecendo em nosso meio como um grande mutirão de partilha e amor, sinais concretos da boa-notícia, os quais se desenvolvem nos ambientes que entendem a melodia utilizada por Maria para entoar este hino: o profetismo.
           
Maria empresta sua voz como instrumento de denúncia das desigualdades e maldades praticadas contra os pobres, vítimas da exclusão social e destinatários privilegiados do Evangelho, anunciando um novo tempo. Que nossas vozes sejam da mesma forma utilizadas para defender as pessoas pobres e oprimidas do “Magnificat”, sem terra, pão, lar, saúde e educação assim como Nossa Senhora o fez. “Maria o “Magnificat” cantou e com ela também nós vamos cantar!”

Testemunhas de nosso tempo

Os mártires e seus exemplos de fé
Por Marcos Cassiano Dutra

“O sangue dos mártires é semente de novos cristãos”. Essa frase, extraída dos escritos de Tertuliano, um dos historiadores antigos do cristianismo em Roma, faz referência ao período de grande perseguição e assassinato de muitos cristãos no extinto império romano. Tais palavras eram inscritas nas catacumbas, localizadas debaixo da cidade eterna, onde eram sepultados os restos mortais dos martirizados, como uma forma de honrar a memória dos que derramaram o sangue testemunhando a fé em Jesus.
            
Vemos então que o martírio, como testemunho da fé em Cristo, foi e é um companheiro constante ao longo da história do Cristianismo. Começou ainda nos primórdios da Igreja com o apedrejamento de Santo Estevão pelos judeus, e continua hoje em todas as partes do mundo. Na nossa América Latina e Brasil, muitos são os irmãos e irmãs que já tombaram, tombam e continuarão tombando, neste chão ameríndio, por terem ousado levantar a voz em defesa dos direitos humanos como prática virtuosa, evangélica e profética, dos gestos, palavras e ações de nosso Senhor, que diz: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em plenitude”.
           
Lembremos nossos mártires latino-americanos, vitimados pela ganância e pela injustiça: os padres Josimo Morais Tavares, Ezequiel Ramin, Rodolfo Luckenbein e João Bosco Penido Burnier, as religiosas irmã Cleusa (assassinada porque defendia os indígenas da Amazônia) e Dorothy Stang (que trabalhava na Comissão Pastoral da Terra, no Pará), Dom Oscar Romero em El Salvador e os leigos Chico Mendes e Margarida Alves, entre tantos outros.
           
Entoa um canto popular: “A vida de quem tombou é força viva de paz!” Sim! Nós cremos na mesma fé dos irmãos que foram martirizados, lutando com as armas do Evangelho, contra as estruturas opressoras em favor do povo de Deus; fé esta, fundamentada em Cristo, o qual os precedeu no martírio suspenso em seu santo madeiro.

“Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão”. Grau heróico de uma santidade ainda não citada nas memórias litúrgicas e infelizmente encoberta nos livros da história, mas presente na força dos que corajosamente, em nossos dias, continuam essa missão cristã e humanitária nas organizações e iniciativas populares e pastorais. Rezemos ao Senhor em memória desses irmãos e irmãs, o sangue deles irriga de esperança a sociedade contemporânea. “Morre o tirano e morre o seu poder, morre o mártir e nasce o seu poder”. Mártires de ontem e de hoje, roguem a Deus por todos nós!           

A liturgicidade da água na vida humana.

Água, fonte de vida e simbolismo cristão.
Por Marcos Cassiano Dutra

Na liturgia da Missa, para o momento do ato penitencial, quando ocorre a aspersão da água benta sobre os fiéis, existe um canto próprio para tal ocasião, o qual diz: “Banhados em Cristo somos uma nova criatura”. A água, um dos quatro elementos naturais, possue um oportuno simbolismo litúrgico e cristão para nós, vamos lembrá-los.
           
Primeiro ela nos recorda Deus Criador de todas as coisas, a pureza, o Sacramento do Batismo, a libertação do povo de Deus, que sob a guia de Moisés atravessaram o Mar Vermelho a pé enxuto, a Piscina de Siloé onde Jesus curou um cego de nascença, o lava-pés da Quina-feira Santa, o lado aberto de nosso Senhor de onde jorrou sangue e água, que, como escreve Santo Agostinho, simbolizam a Igreja e os sacramentos.
           
Não é por acaso que Deus utilizou-se da água no desenvolver da história da salvação, e, o continua nos dias de hoje utilizando-a como instrumental criativo de sua Revelação. Desde o princípio da vida dos seres vivos, lá está à água, somos gerados na água do ventre de nossas mães e renascidos também nas águas batismais de nossa Mãe Igreja. Até comparamos em nossas reflexões a misericórdia divina como sendo um mar, um oceano, onde todos os pecadores devem mergulhar suas vidas no Senhor.
           
Quão grande é o mistério de Deus em sua criação! Hoje assistimos hora perplexos, hora conformados, a degradação do meio ambiente, principalmente o desperdício e a poluição dos mananciais, lagoas, rios, mares e lençóis freáticos. A ganância capitalista, que brinca de descriar a criação, coloca o equilíbrio e desenvolvimento sustentável para segundo plano, aumentando mais ainda o risco de catástrofes no ecossistema. “Embora o Brasil seja o primeiro país em disponibilidade hídrica em rios do mundo, a poluição e o uso inadequado comprometem esse recurso em várias regiões do País. A maioria dos poluentes são consequencias das atividades humanas.” (Site Ambiente Brasil).

Recordemos as palavras do Papa Bento XVI em sua mensagem anual pra o dia mundial da paz em 2010, a qual dizia: “Se queres cultivar a paz, preserva a criação.” As palavras do Santo Padre, ressoem em nossas atitudes. Rezemos: Senhor nosso Deus, pedimos perdão pela falta de cuidado para com a natureza, em especial a água, criatura vossa, dada a nós como dom natural de sua grande bondade criadora. Ó Pai, que nosso mundo se converta no mesmo Éden bíblico, onde homem e mulher, criados sua imagem e semelhança, cooperem contigo, zelando pelos bens da criação ao invés da autossuficiência, que quebra tal amizade entre a humanidade e vós, Senhor de todas as coisas. Amém!

Família cristã e seus desafios

A família cristã no mundo hoje
Por Marcos Cassiano Dutra


Família, grupo de pessoas ligadas por laços de casamento ou parentesco. Pai, Mãe e filhos. O dicionário da língua portuguesa muito bem define a palavra família, e é sobre ela que queremos refletir, apartir da voz educadora da Igreja, visto que a comunidade eclesial é uma família de fé e a família cristã uma igreja doméstica.
           
 Hoje a sociedade pós-moderna e secularizada conduz as pessoas ao relativismo quanto à instituição familiar com os mais diversos questionamentos existenciais e sociais; tal ideologia contemporânea afeta inúmeros cristãos, os quais, estando presentes na realidade e nas suas estruturas temporais, são influenciados por determinadas idéias fóbicas, falaciosas e deturpadas. A conseqüência de tal influência nos cristãos deste tempo é que, em nome de um conceito social antropocentrista, acabam esquecendo-se da sacralidade de ser e ter uma família naturalmente constituída e consagrada a Deus por meio do Sacramento do Matrimônio. Lembremos as palavras do Beato João Paulo II – “Uma família autêntica, fundada no matrimônio, é, em si mesma, uma ‘boa notícia’ para o mundo”.
           
O grande exemplo familiar evangélico-cristão é a Sagrada Família de Nazaré. Certa canção, muito conhecida em nossas comunidades, quando cantada nas celebrações, seu refrão traz a seguinte mensagem: “Olhando a Sagrada Família, Jesus, Maria e José, saibamos fazer a partilha dos gestos de amor e de fé”. Porque devemos olhar para a Família de Nazaré? Não poderíamos olhar para os ditos “novos modelos de família moderna” que estão sendo legitimados por leis? Nós cristãos, olhamos e devemos olhar para a Família de Nazaré, porque ela é a mais fiel e original expressão visível do amor de Deus a ser vivido e construído em nossos lares.
           
Oportunas são as palavras de Bento XVI: “Queridos pais, empenhai-vos sempre em ensinar os vossos filhos a rezar, e rezai com eles; aproximai-os dos Sacramentos, especialmente da Eucaristia; introduzi-os na vida da Igreja; na intimidade doméstica, não tenhais medo de ler a Sagrada Escritura, iluminando a vida familiar com a luz da fé e louvando a Deus como Pai. Sede uma espécie de Cenáculo em miniatura, como o de Maria e dos discípulos, onde se vive a unidade, a comunhão, a oração”.
           
Rezemos ao Senhor: Ó Deus, família trinitária que nos acompanha durante toda a vida, olhai pelas nossas famílias, especialmente as que passam por dificuldades, daí a todas Senhor tua santa paz, que não é paz do mundo, mas de seu Coração Sagrado que pulsou de amor por nós no peito transpassado de seu Filho Jesus Cristo, o qual amou e respeito Maria e José, a família de Nazaré. Obrigado Pai do céu pelo dom da família em nossas vidas. Amém. 

Mensagem de fé

A fé cristã e o mistério da morte
Por Marcos Cassiano Dutra

Disse Jesus: “Eu sou a Ressurreição e a vida, quem crê em mim, ainda que morra, viverá!” A vida eterna é uma realidade transcendente e misteriosa pela qual o ser humano aspira em sua existência terrestre e temporal. Um sábio provérbio diz: “de Deus viemos, em Deus vivemos e para Ele voltaremos”. Se Deus, autor e fonte da vida, é Pai nosso que está no céu, assim como o Mestre de Nazaré ensinou-nos outrora no Novo Testamento, então, retornar para o Pai é regressar para o lar, para casa, a eterna morada, a pátria celeste.
           
Quão belo deve ser o encontro entre filhos e Pai! Torna-se indescritível tal sensação sobrenatural, singular e especial; assim como é difícil humanamente interpretar o mistério da morte, fenômeno natural e pascal, pelo qual cada homem e mulher, seres viventes, experimentam uma só vez, no momento crucial do viver, quando “apagam-se as coisas da terra e se ascendem as do céu” após uma vida vivida por, com e em Cristo.
           
São Francisco de Assis, transbordante de fé, caridade e esperança, dizia em oração: “É morrendo que se vive para a vida eterna”, tão iluminado pelo Espírito Santo chamava a morte de sua própria irmã. Oxalá se todas as pessoas se comportassem de forma franciscana diante da vida e da morte!
           
Ainda há tempo! Não espere a hora de partir deste mundo para dar-se conta do mistério grandioso que envolve a vida. Comece agora a dar valor e sentido a vida, vivendo a certeza final vindoura em Cristo, primícia e esperança da ressurreição da carne. Ao lembrar na saudade os que já estão na casa de Deus, faça uma prece por eles, lá do céu, acredite, nossos irmãos falecidos rezam também ao Pai Eterno por todos nós.
           
 E quando chegar a hora do retorno, do encontro com Deus, entregue sem medo a alma, suspirando pela última vez nos braços da Divina Misericórdia onde irás descansar em paz.  Benditos os que vivem para Deus, benditos os que morrem em Deus!
           
Que os fiéis defuntos descansem em paz, amém.    

No coração do cristão o Coração de Cristo

O Coração de Jesus e o coração humano
Por Marcos Cassiano Dutra

O ser humano vive toda sua trajetória terrena, temporal e passageira, em busca da felicidade. Para alguns esta procura se torna obsessiva e angustiante, visto que inúmeras são as pessoas que se iludem com determinadas situações cotidianas, hora agradáveis humanisticamente, porém supérfluas, efêmeras. Martin Heidegger, filósofo contemporâneo, dizia que - “A angústia é a disposição fundamental que nos coloca ante o nada”. Diante do nada é preciso então encontrar o tudo. Frente a essa angústia humana está o anseio de Deus Criador, o qual quer resgatar o homem das condições existenciais escravizantes, as quais deturpam, por meio de ideologias, a essência intrínseca de todos os seres viventes, que é o eterno, o tudo divino.
           
Mas como salvar o homem? – Pensa Deus em sua glória. O Espírito Santo logo intervém sabiamente apontando o Caminho: o Filho. Sim! O Filho há de ser o instrumento da salvação humana, o preço e vítima do resgate, por isso Ele irá encarnar-se na história da humanidade, a fim de continuar a obra começada, a Revelação. E o fará de forma plena, na plenitude dos tempos, tornando-a história da salvação. Sua teofânia é Jesus de Nazaré, “rosto humano de Deus e rosto divino do homem”. Seu nome salvador é Deus Conosco; está profundamente conosco que se faz homem para viver em tudo a condição humana, menos o pecado. O coração de Deus pulsa no peito transpassado de Jesus crucificado no madeiro.
           
O amor do Pai, na pessoa divina de seu Cristo (ungido), não poupou o próprio sangue do Filho para amar-nos infinitamente. Quando o ser humano deixa-se penetrar pelo mistério pascal, encontra sua real felicidade no Sagrado Coração de Jesus e assim consegue amar o próximo de forma coerente, no exercício de cada vocação específica.
           
Olha, portanto, para o Coração de Cristo Jesus, nele não há mentiras, peverção, preconceitos e egoísmo. Lá está à fonte inexaurível de todas as virtudes, em especial o verdadeiro amor que jamais passará. Reze com fé, na caridade, sem perder a esperança cristã – Jesus, manso e humilde de coração, faça o meu coração semelhante ao vosso.  “Nossa vida, como um rio, é bela não só pelo seu fim, mas também pelo seu próprio percurso.” Percurso que inicia e se finda no mesmo lugar de santidade: em Deus. 

O papel da Igreja na sociedade

               
Igreja e questões sociais
Por Marcos Cassiano Dutra
                       
O acesso a terra e a casa própria, além de ser um direito humano, é a garantia material para o sustento, abrigo e desenvolvimento familiar. As questões sociais envolvendo conflitos agrários e urbanos, são os efeitos de duas causas fundamentais: a distribuição desigual da terra e das especulações imobiliárias sobre a propriedade privada, fatos sociais que fomentam a marginalização de uma parcela da população, a qual se vê indefesa e injustiçada diante das manobras inescrupulosas da superestrutura ideológica implantada a serviço da concentração de terras e imóveis de luxo nas mãos de poucos, de um grupo, em detrimento de muitas mãos calejadas vazias de dignidade e repletas de miséria nos casebres e barracos.

Essa realidade opressora, ao longo do tempo, motivou a mobilização e criação de várias iniciativas pastorais e populares, tendo em vista a denúncia de tal situação social, além de ser um mecanismo político-social democrático na defesa do bem comum, isto é, do acesso de todos a terra e a moradia digna. Dois são os exemplos de ação pastoral e social organizada, que levantam essa causa: a CPT (Comissão Pastoral da Terra), organismo da CNBB e o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), dentre tantos outros que também existem e atuam, mobilizando cidadãos e cristãos em torno dessa problemática.

Infelizmente a ideologia presente nos meios de comunicação social, incute na mentalidade de seus ouvintes a idéia preconceituosa com relação a ação social de tais organizações, considerando-as subversivas, criminosas e sem necessidade, isso ocorre constantemente, porque representam uma ameaça ao modo de vida dos opressores, ou seja, do corrupto, do grileiro, do latifundiário, das madeireiras ilegais, enfim, de gente que financia as mídias ou são seus próprios donos. São gente assim que continua agregando para si mesmos vários latifúndios, muitos improdutivos, imóveis e segregando cada vez mais os pobres do Brasil, os quais devem se contentar com as pequenas e retiradas casas populares que o Estado oferece para ilusoriamente minimizar os efeitos da dívida social ainda existente e gritante. Fortes são as palavras do Papa Paulo VI – “Os povos da fome interpelam hoje de forma dramática os povos da opulência”.

É incômodo argumentar acerca da reforma agrária e urbana na sociedade brasileira, bem como dentro da religião, visto que alguns dos quais dão suporte político e midiático para a manutenção da desigualdade social, estão direta ou indiretamente envolvidos dentro do ambiente religioso, em especial o ambiente cristão, vez outra são apoiados por membros da instituição religiosa, algo lamentável para quem prega o evangelho de Jesus Cristo, “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância”. O poder religioso é legítimo quando está a serviço da vida em plenitude como gesto concreto de fé, e, não quando se deixa manipular por interesses pessoais de gente que não tem conduta cristã. Houve vozes que se levantaram na denúncia dos esquemas marginalizadores, como Padre Josimo, Irmã Dorothy Stang e Chico Mendes. Resultado: perseguição e morte. A coragem profética e evangélica dessa gente martirizada anima a esperança do reino de Deus entre nós.
           
Como diria o sábio Dom Hélder Câmara – “Quando se fala de violência, devemos nos perguntar se é da violência dos oprimidos ou da violência dos opressores”. Soam fortes ao ouvido as palavras do Mestre de Nazaré, “Quando fizeste algo a um destes pequeninos, foi a mim que o fizeste”. Toda forma de exclusão social afeta diretamente a pessoa divina de nosso Senhor. A Igreja no Brasil, como mãe e educadora dos fiéis, tal qual expressa o catecismo, deve se manter atenta as questões sociais que afetam o povo de Deus, assim como Moisés o fez em nome do Senhor. Hoje existem também faraós a escravizar, é preciso ver, julgar e agir sem manipular-se. Oportunas são novamente as palavras de Paulo VI – “A propriedade privada não constitui para ninguém um direito incondicional e absoluto. Ninguém está autorizado a reservar para seu uso exclusivo aquilo que excede as suas necessidades, quando aos outros lhes falta até o mais necessário.  

Bento XVI, na sua Encíclica Caritas in Veritate, assim escreve sobre o papel social da Igreja no mundo hodierno: “A Igreja não tem soluções técnicas para oferecer e não pretende de modo algum imiscuir-se na política dos Estados; mas tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à medida do homem, da sua dignidade, da sua vocação. A sua doutrina social é um momento singular deste anúncio: é serviço à verdade que liberta. Aberta à verdade, qualquer que seja o saber donde provenha, a doutrina social da Igreja acolhe-a, compõem numa unidade os fragmentos em que frequentemente a encontra, e serve-lhe de medianeira na vida sempre nova da sociedade dos homens e dos povos”.

Frente às questões sociais oriundas do materialismo e intimismo capitalista, a Igreja é chamada a ser voz dos sem voz, a ser locução assertiva na consolidação de uma sociedade mais humana e cristã, apontando os desafios a serem enfrentados a fim de que haja equilíbrio e justiça social.