Vida cristã e realização humana
Dom Fernando Mason
Bispo da Diocese de Piracicaba
Realização, como nós a representamos, é o término de um desenvolvimento: uma potencialidade que se desdobra até alcançar a plenitude de atualização. Para isso é necessário – dizemos – afastar os obstáculos que bloqueiam o desenvolvimento e criar um ambiente propício a ele.
Essa concepção tem como modelo o crescimento de uma planta. Surge, porém, a questão: será que esse modelo é adequado, em se tratando de uma realização humana? Quando digo: eu quero me realizar, a que tipo de realização me refiro: profissional, afetiva, intelectual, religiosa? Dessas inumeráveis realizações, qual é para mim a realização que comanda, unifica e move todas as outras realizações parciais? Dizemos: a realização humana é o desenvolvimento pleno de todas as potencialidades: como isso è possível, se cada um é limitado. A realização como fruto do meu desejo é de fato uma realização "humana"?
Estas perguntas mostraram que não sabemos bem o que buscamos. A realização, portanto, é tarefa de um empenho: do empenho da busca pelo sentido radical da minha vida.
Isso significa: a cada passo da nossa vida aquilo que è familiar se perde no estranho. Ao nos perdermos no estranho, a segurança do familiar desaparece e pairamos no ar. Aos poucos, da escuridão do estranho começam a surgir novas perspectivas. À luz de novas perspectivas reassumimos o passado e o futuro. Nesse reassumir se desvela mais claro o sentido do que pensávamos saber no passado familiar. Esse desvelar no entanto é ao mesmo tempo um velamento, pois surgem novas questões futuras mais agravantes para a nossa experiência.
Aos poucos o peso da nossa experiência pesa sempre mais, nos tornamos grávidos do sentido da vida, nos abrimos mais e mais à profundidade humana, vamos abandonando aos poucos a onisciência unidimensional da perspectiva do nosso pequeno eu.
Crescer em idade e em sabedoria diante de Deus e dos homens é tornar-se cada vez mais vazio de si mesmo. Com efeito, a vida vai tirando aos poucos tudo o que possuíamos: a saúde, as forças, a eficiência no trabalho... Até mesmo certas virtudes que conquistamos vão desaparecendo. Tudo isso acontece para que nos despojemos inteiramente do orgulho, do amor próprio e apareçamos um dia diante de Deus completamente vazios, para podermos acolher em cheio o imenso amor de Deus.
Portanto o problema da realização humana é: onde está, em que consiste a paixão de nossa vida, que consiga transformar todas as vicissitudes do cotidiano em fontes de experiências que me aperfeiçoem, que me façam crescer naquilo que desejo ser?
O que queremos ser jamais nos é dado como algo pronto, fixo e claro. No caminhar da vida ele vem a nós, manifestando-se de crise em crise. Crise é volta ao vigor originário. De crise em crise somos levados a tomar nova decisão que purifica a nossa mente de acessórios acidentais, de visões parciais e imaturas, e assim somos conduzidos de volta ao sentido mais profundo de nossa vida. As dificuldades da vida que provocam a crise são convites para o regresso à fonte essencial. Mas depende do nosso vigor aproveitar de um tal acontecimento negativo para o nosso próprio bem.
As dificuldades da vida, os sofrimentos existem para que nós comecemos a criar em nós uma visão mais ampla da vida, comecemos, de crise em crise, buscar uma realização maior do que aquela em que estamos instalados. A vida é nesse ponto intransigente, ela é uma boa mestra. Ela nos perseguirá com sofrimentos, neuroses, complexos e dificuldades, até que nos decidamos a buscar uma identidade mais profunda e maior para nós. Mas na consumação de nossa busca, no auge de nossa ambição a vida nos mostrará que é preciso abandonar-nos, nessa busca, à gratuidade do mistério de Deus, na abnegação do poder, da vontade, como a um outro eu maior, insondável, que é a saudade, o desejo dos nossos corações. Essa tarefa só podemos realizar nós mesmos, sozinhos diante de Deus.
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