Igreja e questões sociais
Por Marcos Cassiano Dutra
O acesso a terra e a casa própria, além de ser um direito humano, é a garantia material para o sustento, abrigo e desenvolvimento familiar. As questões sociais envolvendo conflitos agrários e urbanos, são os efeitos de duas causas fundamentais: a distribuição desigual da terra e das especulações imobiliárias sobre a propriedade privada, fatos sociais que fomentam a marginalização de uma parcela da população, a qual se vê indefesa e injustiçada diante das manobras inescrupulosas da superestrutura ideológica implantada a serviço da concentração de terras e imóveis de luxo nas mãos de poucos, de um grupo, em detrimento de muitas mãos calejadas vazias de dignidade e repletas de miséria nos casebres e barracos.
Essa realidade opressora, ao longo do tempo, motivou a mobilização e criação de várias iniciativas pastorais e populares, tendo em vista a denúncia de tal situação social, além de ser um mecanismo político-social democrático na defesa do bem comum, isto é, do acesso de todos a terra e a moradia digna. Dois são os exemplos de ação pastoral e social organizada, que levantam essa causa: a CPT (Comissão Pastoral da Terra), organismo da CNBB e o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), dentre tantos outros que também existem e atuam, mobilizando cidadãos e cristãos em torno dessa problemática.
Infelizmente a ideologia presente nos meios de comunicação social, incute na mentalidade de seus ouvintes a idéia preconceituosa com relação a ação social de tais organizações, considerando-as subversivas, criminosas e sem necessidade, isso ocorre constantemente, porque representam uma ameaça ao modo de vida dos opressores, ou seja, do corrupto, do grileiro, do latifundiário, das madeireiras ilegais, enfim, de gente que financia as mídias ou são seus próprios donos. São gente assim que continua agregando para si mesmos vários latifúndios, muitos improdutivos, imóveis e segregando cada vez mais os pobres do Brasil, os quais devem se contentar com as pequenas e retiradas casas populares que o Estado oferece para ilusoriamente minimizar os efeitos da dívida social ainda existente e gritante. Fortes são as palavras do Papa Paulo VI – “Os povos da fome interpelam hoje de forma dramática os povos da opulência”.
É incômodo argumentar acerca da reforma agrária e urbana na sociedade brasileira, bem como dentro da religião, visto que alguns dos quais dão suporte político e midiático para a manutenção da desigualdade social, estão direta ou indiretamente envolvidos dentro do ambiente religioso, em especial o ambiente cristão, vez outra são apoiados por membros da instituição religiosa, algo lamentável para quem prega o evangelho de Jesus Cristo, “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância”. O poder religioso é legítimo quando está a serviço da vida em plenitude como gesto concreto de fé, e, não quando se deixa manipular por interesses pessoais de gente que não tem conduta cristã. Houve vozes que se levantaram na denúncia dos esquemas marginalizadores, como Padre Josimo, Irmã Dorothy Stang e Chico Mendes. Resultado: perseguição e morte. A coragem profética e evangélica dessa gente martirizada anima a esperança do reino de Deus entre nós.
Como diria o sábio Dom Hélder Câmara – “Quando se fala de violência, devemos nos perguntar se é da violência dos oprimidos ou da violência dos opressores”. Soam fortes ao ouvido as palavras do Mestre de Nazaré, “Quando fizeste algo a um destes pequeninos, foi a mim que o fizeste”. Toda forma de exclusão social afeta diretamente a pessoa divina de nosso Senhor. A Igreja no Brasil, como mãe e educadora dos fiéis, tal qual expressa o catecismo, deve se manter atenta as questões sociais que afetam o povo de Deus, assim como Moisés o fez em nome do Senhor. Hoje existem também faraós a escravizar, é preciso ver, julgar e agir sem manipular-se. Oportunas são novamente as palavras de Paulo VI – “A propriedade privada não constitui para ninguém um direito incondicional e absoluto. Ninguém está autorizado a reservar para seu uso exclusivo aquilo que excede as suas necessidades, quando aos outros lhes falta até o mais necessário.
Bento XVI, na sua Encíclica Caritas in Veritate, assim escreve sobre o papel social da Igreja no mundo hodierno: “A Igreja não tem soluções técnicas para oferecer e não pretende de modo algum imiscuir-se na política dos Estados; mas tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à medida do homem, da sua dignidade, da sua vocação. A sua doutrina social é um momento singular deste anúncio: é serviço à verdade que liberta. Aberta à verdade, qualquer que seja o saber donde provenha, a doutrina social da Igreja acolhe-a, compõem numa unidade os fragmentos em que frequentemente a encontra, e serve-lhe de medianeira na vida sempre nova da sociedade dos homens e dos povos”.
Frente às questões sociais oriundas do materialismo e intimismo capitalista, a Igreja é chamada a ser voz dos sem voz, a ser locução assertiva na consolidação de uma sociedade mais humana e cristã, apontando os desafios a serem enfrentados a fim de que haja equilíbrio e justiça social.
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